Mark Cerny, arquiteto-chefe do PlayStation 5, e Geoff Keighley, apresentador e produtor do The Game Awards, decidiram investir milhões de dólares em uma iniciativa que pretende ajudar a formar a próxima geração de criadores da indústria de videogames.

Os dois lançaram a Nova Games Foundation, um programa de bolsas ligado a universidades que pretende conceder bolsas de seis dígitos para 20 jovens designers de jogos todos os anos. A proposta vai muito além de simplesmente financiar estudantes: Cerny e Keighley querem criar uma estrutura de longo prazo capaz de revelar novos designers, líderes e visionários para a indústria.
Para conduzir o projeto, a fundação nomeou John Maconga como diretor executivo e Ashley Corrigan, ex-diretora da Game Developers Conference, como responsável pelo programa de bolsas.
Cerny diz que quer “retribuir” à indústria
Em entrevista a Stephen Totilo, do Game File, Cerny explicou que acredita estar se aproximando da fase final de sua carreira e que chegou o momento de começar a devolver à indústria parte daquilo que recebeu ao longo de sua trajetória.
É uma declaração particularmente interessante vindo de alguém que está envolvido com videogames há décadas e participou diretamente de alguns dos projetos mais importantes da história do PlayStation.
A ideia da Nova Games Foundation nasce justamente dessa vontade de “pay it forward”, ou seja, criar oportunidades para quem está chegando agora e permitir que novos talentos tenham condições de desenvolver suas ideias.
Keighley compartilha da mesma visão. Segundo ele, os dois já colocaram milhões de dólares de suas próprias fortunas para estabelecer a fundação e pretendem continuar contribuindo financeiramente no futuro.
E existe uma diferença importante em relação a um investimento tradicional na indústria.
Não existe participação nos futuros jogos
Keighley fez questão de explicar que a iniciativa não foi criada para gerar retorno financeiro.
“Eu nunca tive ações de uma empresa de jogos ou participação financeira em um jogo. A Nova é filantropia: não estamos recebendo participação acionária nem tentando recuperar o dinheiro das bolsas”, explicou.
Segundo ele, o retorno que os dois esperam obter é criativo.
A intenção é ajudar novos profissionais a encontrar sua voz, desenvolver seus projetos e conseguir espaço para trabalhar em uma indústria que, apesar de movimentar bilhões de dólares, continua sendo extremamente difícil para quem está tentando dar os primeiros passos.
E essa talvez seja a parte mais interessante da iniciativa.
Cerny e Keighley não estão procurando apenas o próximo grande designer de videogames. A fundação também pretende encontrar futuros líderes e visionários capazes de ajudar a indústria a se manter saudável nas próximas décadas.
20 novos designers por ano
O programa deverá selecionar 20 jovens designers de jogos por ano, oferecendo bolsas de seis dígitos para que possam desenvolver sua formação e seus projetos.
A proposta de criar um programa recorrente também demonstra que a Nova Games Foundation não foi pensada como uma ação promocional de um ou dois anos.
A ambição é construir algo que continue existindo mesmo depois que Cerny e Keighley deixarem de estar diretamente envolvidos com a indústria.
Keighley resumiu essa intenção ao dizer que os dois pretendem continuar colocando dinheiro na fundação e esperam que outras pessoas da comunidade de games também se juntem ao projeto.
Ou seja, a ideia é transformar a Nova em uma espécie de círculo virtuoso: profissionais estabelecidos ajudam novos talentos, esses talentos crescem, entram na indústria e, eventualmente, podem fazer o mesmo por quem vier depois.
Um legado que não precisa ser um videogame
Existe uma certa ironia bonita nessa história.
Mark Cerny passou décadas ajudando a construir videogames. Agora, perto do que considera ser a reta final de sua carreira, ele está tentando construir algo que talvez tenha uma vida ainda mais longa que qualquer jogo em que tenha trabalhado.
E Geoff Keighley, que passou anos colocando os holofotes sobre os maiores lançamentos e criadores da indústria, agora está colocando parte de seus próprios recursos para ajudar quem ainda não teve a oportunidade de chegar ao palco.
É uma iniciativa que pode acabar sendo medida não pelo número de jogos produzidos diretamente pela fundação, mas pelos nomes que surgirão dela daqui a 10, 20 ou 30 anos.
Se a ideia realmente conseguir criar essa continuidade, a Nova Games Foundation poderá se transformar em uma das iniciativas filantrópicas mais interessantes da indústria de games.
Clima SussuWorld
Essa notícia tem um negócio muito legal: Cerny está falando de legado sem falar de hardware.
O cara ajudou a desenhar o PlayStation 5 e agora resolveu investir milhões para tentar garantir que existam pessoas talentosas para desenhar os jogos que vamos jogar daqui a 10, 20 ou 30 anos.
E o Keighley entrou junto com milhões do próprio bolso, sem participação nos projetos e sem esperar recuperar o dinheiro. O “retorno” que eles querem é ver gente nova conseguindo criar.
Isso é raro numa indústria em que quase tudo acaba virando investimento, aquisição, porcentagem, propriedade intelectual e planilha de Excel.
E tem uma coisa que eu particularmente gostei: 20 pessoas por ano parece pouco quando você olha para o tamanho gigantesco da indústria, mas basta algumas delas realmente encontrarem seu caminho para o impacto começar a se multiplicar.
Talvez daqui a alguns anos apareça um designer dizendo:
“Eu só consegui fazer meu primeiro jogo porque a Nova me deu uma oportunidade.”
Aí Cerny e Keighley terão conseguido algo que dinheiro nenhum compra: deixar gente nova continuar a história depois que eles saírem de cena.
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