Antes de se tornar uma das figuras mais queridas e influentes da história dos videogames, Shuhei Yoshida era só um garoto em Kyoto com dois grandes sonhos: viver fora do Japão e embarcar em aventuras épicas como as de Dragon Quest. Ele só não imaginava que um dia realizaria ambos - e ajudaria a criar o império PlayStation no processo.
Formado em ciências, Yoshida entrou na Sony logo após a faculdade, trabalhando no setor de estratégia corporativa. Mas o destino mudou quando ele conheceu Ken Kutaragi, o engenheiro visionário que criaria o primeiro PlayStation. Fascinado pelo projeto de Kutaragi - um acessório de CD-ROM para o Super Nintendo -, Yoshida começou a se aproximar da equipe, mesmo sem estar oficialmente envolvido.
“Meu colega não era muito fã de videogames, então eu dava conselhos pra ele”, lembra Yoshida.
Tudo ia bem… até a famosa traição da Nintendo.
Durante a CES de 1991, a Sony se preparava para anunciar o Nintendo PlayStation, fruto da parceria entre as duas gigantes. Mas, de última hora, a Nintendo subiu ao palco e revelou uma nova aliança — com a Philips. O projeto foi cancelado, e a Sony ficou furiosa.
“A Nintendo nos traiu publicamente”, recorda Yoshida. “A Sony teve duas opções: sair do mercado de games ou criar seu próprio console.”
O resto, como dizem, é história.
A revolução PlayStation
Kutaragi usou a raiva da alta cúpula da Sony como combustível para criar algo revolucionário: um console 3D de verdade, muito mais poderoso do que o projeto original. Yoshida, finalmente envolvido de corpo e alma, ajudou a montar a equipe de licenciamento e convencer estúdios a apostarem na nova plataforma.
No começo, muitos duvidavam do 3D. Até que Virtua Fighter, da SEGA, provou que a tecnologia tinha futuro. “Depois disso, recebi várias ligações de empresas querendo trabalhar conosco”, diz Yoshida.
Uma delas foi a Namco, que trouxe Ridge Racer e Tekken - dois pilares do lançamento do PlayStation. Mas o golpe de mestre veio com a chegada da Square.
“Sakaguchi queria fazer jogos com cenas cinematográficas e mundos enormes, mas os cartuchos do Nintendo 64 limitavam muito. O CD-ROM da Sony era perfeito pra isso”, explica Yoshida.
E foi num jantar regado a saquê e karaokê que a Sony convenceu a Square a lançar Final Fantasy VII no PlayStation. “É assim que os negócios são feitos no Japão”, ri Yoshida.
Do sucesso absoluto à queda com o PS3
O PlayStation 1 foi um sucesso estrondoso, e Yoshida logo passou a supervisionar os estúdios internos, ajudando a produzir títulos como Ape Escape e The Legend of Dragoon. Ele também acompanhou o início de ICO, que só seria finalizado no PS2.
Quando a geração do PS3 chegou, veio a turbulência. O console era caro e difícil de programar, e o Xbox 360 levava vantagem. “Foi difícil ver jogos rodando melhor no Xbox do que no PS3”, admite Yoshida.
Ainda assim, a filosofia de “adiar o quanto for preciso para fazer direito” salvou a geração. Essa paciência deu origem a clássicos como Uncharted e The Last of Us. “A Naughty Dog queria algo mais maduro. Eu temi que fosse nichado demais… mas virou um dos maiores sucessos da história.”
De AAA a indie: o coração de Yoshida
Com o PS4, Yoshida ajudou a unir os times de hardware e software - um dos segredos por trás da facilidade de desenvolvimento da plataforma. Mas, nos últimos anos, ele se voltou ao que mais o inspirava: os jogos independentes.
“Enquanto todos focavam nos grandes blockbusters, eu passava mais tempo nas áreas indie das feiras. Quando via um jogo que amava, tirava foto com os devs e tentava ajudá-los.”
Graças a essa paixão, títulos como Journey e Resogun encontraram seu espaço dentro do ecossistema PlayStation.
De garoto sonhador a lenda dos games, Shuhei Yoshida nunca perdeu o brilho nos olhos de quem ama jogar. Talvez por isso ele tenha sido - e ainda seja - um dos maiores responsáveis por transformar o PlayStation no lar dos sonhos de milhões de jogadores.
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