Uma denúncia pesada veio à tona envolvendo a Sony Interactive Entertainment China e o China Hero Project, programa criado para apoiar e dar visibilidade internacional a estúdios chineses. Segundo a Loongforce, estúdio de Chengdu responsável pelo shooter cooperativo Convallaria, a parceria com a Sony teria se transformado, ao longo dos anos, em um processo marcado por atrasos constantes, pressão financeira e tentativas de interferência direta no controle do projeto.
Este texto se baseia em um rascunho investigativo em andamento e poderá ser atualizado caso a Sony ou o China Hero Project se manifestem. Todas as alegações descritas abaixo partem da Loongforce ou de fontes de apoio citadas pela Noisy Pixel, que teve acesso a e-mails internos, registros de conversas e reclamações formais do estúdio.
Segundo a Loongforce, o rompimento não foi repentino, mas resultado de anos de desgaste. Em conversa com a Noisy Pixel, um desenvolvedor afirmou que a decisão de tornar o caso público só aconteceu após todas as tentativas internas falharem.
“Não fomos a público por atenção. Fizemos isso porque todos os caminhos internos foram esgotados, e nada mudou.”
A Loongforce entrou para a segunda leva do China Hero Project em 2018, iniciativa apoiada pela Sony para impulsionar desenvolvedores chineses. Em 2021, o estúdio assinou um acordo global de publicação com a SIE, colocando Convallaria em um grupo extremamente seleto de jogos chineses publicados diretamente pela Sony.
De acordo com o estúdio, a relação começou a se deteriorar em 2022, quando Bao Bo assumiu a liderança de produção do projeto dentro da divisão de software da SIE China. A partir daí, o que antes era cooperação teria se transformado em inação prolongada e conflitos recorrentes.
A Loongforce afirma ter reunido uma reclamação formal acusando Bao de conduta antiética, abuso de autoridade e decisões que teriam prejudicado não só o jogo, mas o ecossistema de desenvolvimento local. O estúdio diz ter solicitado revisões internas e ações corretivas, sem sucesso.
Atrasos, silêncio e um jogo congelado
Segundo a Loongforce, os problemas ficaram mais claros a partir de meados de 2023. Meses se passaram sem qualquer plano concreto de marketing, testes com jogadores, estratégia de servidores ou coordenação de lançamento.
Mesmo após Convallaria passar pela aprovação beta da Sony em 30 de janeiro de 2025, o projeto teria entrado em um verdadeiro congelamento.
“A gente perguntava qual era o plano. Sempre diziam para não nos preocuparmos… e nada acontecia.”
De acordo com o estúdio, não houve criação de páginas nas lojas digitais, campanhas promocionais ou feedback formal em uma fase que deveria ser decisiva para o lançamento.
Apagamento em material oficial
O silêncio também teria se refletido na comunicação pública. Um dos produtores da Loongforce foi gravado para um documentário comemorativo de 10 anos da PlayStation China, que destacava estúdios do China Hero Project.
Quando o vídeo foi ao ar, Convallaria simplesmente não apareceu.
“Todos os outros projetos estavam lá. O nosso simplesmente sumiu.”
Segundo a Loongforce, nenhuma explicação foi dada antes ou depois da publicação. Para o estúdio, esse foi o momento em que a situação deixou de parecer um acidente.
“Ali, começou a parecer que estávamos sendo apagados.”
Atrasos de pagamento e risco de colapso
A situação financeira também teria se agravado em 2025. A Loongforce afirma que atrasos nos pagamentos empurraram o estúdio para perto do colapso. Após a janela de lançamento prevista para março ser perdida, os prejuízos mensais ultrapassaram US$ 230 mil, levando o time à beira da dissolução em abril.
Mesmo assim, o desenvolvimento continuou. Builds semanais foram entregues, e um teste de servidor nos EUA foi concluído no fim de abril.
“Parar significaria matar o jogo. Então continuamos, mesmo isso machucando a equipe.”
Após o que o estúdio descreve como uma proposta de cooperação “irrazoável” e a rescisão unilateral de um acordo de pagamento, a Loongforce interrompeu a colaboração. As perdas totais, segundo o estúdio, já ultrapassam US$ 1 milhão.
Conflitos de interesse e terceirizações questionadas
A Loongforce também levanta suspeitas sobre a estrutura interna da SIE China. Entre as acusações estão:
Terceirizações direcionadas exclusivamente à Virtuos, sem concorrência ou aprovação do estúdio.
Exigência de uma reestruturação de segurança de TI custando centenas de milhares de yuans, conduzida por uma empresa com acionistas ligados à Virtuos.
Formação de uma equipe interna composta majoritariamente por ex-subordinados de Bao, com foco em QA e pouca experiência em publicação.
Para a Loongforce, isso criou um ciclo fechado de influência, com pouca transparência e fiscalização.
Tentativa de tomar controle do projeto
O ponto de ruptura teria ocorrido em junho de 2025. Segundo e-mails analisados pela Noisy Pixel, Bao Bo informou ao estúdio que o controle do desenvolvimento seria transferido para uma suposta “equipe global da SIE” e que a recusa impediria o lançamento do jogo.
“Ele disse que o futuro do projeto dependia inteiramente dele. Ali deixou de parecer incompetência e passou a soar como ameaça.”
A Loongforce contesta tanto a autoridade quanto a viabilidade dessa transferência, classificando a exigência como o ápice de anos de pressão e estagnação.
Um problema maior?
Desenvolvedores ligados a outros projetos do China Hero Project relataram à Noisy Pixel que, embora não possam confirmar o caso da Loongforce diretamente, os padrões descritos não lhes são estranhos, especialmente após mudanças de liderança recentes.
Não há indícios de que os problemas sejam universais dentro do programa, mas, se confirmadas, as acusações da Loongforce representariam um dos colapsos mais graves já vistos entre a Sony e um estúdio parceiro do China Hero Project.
Até o momento, a Sony Interactive Entertainment e o China Hero Project não responderam aos pedidos de comentário. Caso isso aconteça, a história será atualizada. Para a Loongforce, a disputa já ultrapassou a questão de um jogo atrasado. Agora, envolve confiança, responsabilidade e o futuro de programas criados para apoiar desenvolvedores - não esgotá-los.
O desfecho desse caso pode não apenas definir o destino de Convallaria, mas também influenciar o quanto outros estúdios estarão dispostos a confiar em iniciativas semelhantes no futuro.
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