Hideaki Anno diz que não cria para o mercado global: “Quem tem que se adaptar é o público” !!

A indústria japonesa de conteúdos vive um momento curioso. Anime, cinema e jogos estão cada vez mais globais, com apoio do governo e planos ambiciosos de expansão. A projeção é gigantesca: 20 trilhões de ienes até 2033. Mas, para Hideaki Anno, criador de Neon Genesis Evangelion, essa corrida internacional não muda o essencial.

https://i.gyazo.com/fac296867760ed98c5bf9ce522c86c4f.jpg 

Em entrevista recente à Forbes Japan, Anno foi direto ao ponto: ele nunca criou pensando no público estrangeiro - e não pretende começar agora.

“Eu só sei fazer coisas para o Japão”

Questionado sobre como a globalização tem impactado a forma como o conteúdo japonês é produzido, Anno afirmou que, na prática, pouco mudou dentro dos estúdios. O ambiente pode ter se transformado, mas a mentalidade criativa segue a mesma.

“Eu pessoalmente nunca fiz nada pensando no público internacional. Só consigo fazer coisas domésticas.”

Segundo ele, é comum ouvir produtores dizendo “pense no mercado global”, mas isso não faz parte do seu objetivo como criador. A lógica de Anno é simples: primeiro a obra precisa funcionar no Japão. Se, por acaso, funcionar fora também, ótimo.

“Se as pessoas no exterior acharem interessante, eu fico grato. Mas não é o meu foco.”

Evangelion 3.0+1.0 nasceu sem concessões

Falando especificamente de Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time, Anno revelou que não considerou o mercado internacional em nenhum momento. Ele decidiu produzir o filme de forma independente justamente para evitar interferências externas. O motivo? Controle total - criativo e emocional.

Ele afirma que estava pronto para assumir toda a responsabilidade, independentemente do desempenho financeiro. Um posicionamento raro num mercado cada vez mais guiado por métricas globais.

A barreira invisível da língua e da cultura

Anno também tocou num ponto delicado: a linguagem. Mesmo sendo uma mídia audiovisual, o cinema ainda depende profundamente do idioma e da forma de pensar japonesa.

“Obras feitas a partir de um pensamento japonês só podem ser totalmente compreendidas em japonês.”

Os diálogos, emoções e conflitos nascem dessa estrutura cultural. Para ele, até é possível que o público estrangeiro se conecte - desde que compreenda as intenções e nuances. Mas adaptar a obra para facilitar esse entendimento? Nem pensar.

“Desculpe, mas quem precisa se adaptar é o público.”

Cinema não é videogame

Outro ponto interessante da fala de Anno é a comparação entre cinema e jogos. Para ele, o cinema é uma via de mão única. O público assiste, reage, critica - mas isso não necessariamente chega aos criadores, nem muda a obra. Diferente dos videogames, que são interativos e mais maleáveis, o filme é fechado. Por isso, Anno acredita que o público precisa confiar nos criadores, não o contrário.

Ele cita o Studio Ghibli e Hayao Miyazaki como exemplos claros de quem nunca pensou no mercado internacional - e ainda assim conquistou o mundo.

Criar aqui, vender depois

Para Anno, o caminho ideal é separar as coisas: o criador cria, o mercado vende.

“Deixemos os empresários transformarem nossas obras em produtos e vendê-los.”

Segundo ele, parte do motivo pelo qual o conteúdo japonês demorou tanto a se popularizar no Ocidente não foi falta de qualidade - foi simplesmente porque o Japão não sabia vender bem suas obras lá fora. E talvez, no fim das contas, essa seja a ironia perfeita: o mundo corre atrás do conteúdo japonês justamente porque ele não tenta agradar o mundo.

0 Comentários

Postar um comentário

Post a Comment (0)

Postagem Anterior Próxima Postagem