Essa é daquelas notícias que dão um abraço no peito de quem ama videogames. A Video Game History Foundation (VGHF) acaba de liberar 144 ROMs inéditas do Mega Drive / Genesis, todas ligadas ao Sega Channel, um dos primeiros serviços formais de jogos por download da história. E quando eu digo “história”, é história mesmo. Coisa dos anos 90. Coaxial, TV a cabo, cartucho especial e um futuro que chegou cedo demais.
O Sega Channel e um futuro que quase se perdeu
Para quem não viveu isso de perto, o Sega Channel funcionou exclusivamente na América do Norte nos anos 90, em parceria com operadoras de TV a cabo. Você conectava um cartucho especial ao Mega Drive, ligava um cabo coaxial e… pronto. Jogos sendo baixados direto pela TV. Nada de cartucho físico. Nada de loja. Os jogos entravam e saíam do catálogo em ciclos, até o serviço ser encerrado em 1998.
O problema? Diferente de serviços como o BS Satellaview do Super Famicom, o cartucho do Sega Channel não salvava nada localmente. Isso transformou a preservação desse material num verdadeiro pesadelo arqueológico.
E é exatamente por isso que essa descoberta é tão absurda.
Não são só jogos. É o Sega Channel inteiro
O que a VGHF recuperou não é só uma coleção de ROMs. É praticamente um raio-x completo do serviço. Estamos falando de:
Jogos exclusivos do Sega Channel
Aplicativos que nunca chegaram ao público
Interfaces finais e protótipos
ROMs de demonstração
Experimentos que nunca saíram do papel
Alguns desses jogos nunca existiram fora do Sega Channel. Agora, pela primeira vez, eles podem ser jogados como ROMs independentes.
Conteúdo perdido… que agora não está mais
Um dos destaques é o curioso pacote “Lost Levels” de Garfield: Caught in the Act, que traz três fases cortadas das versões de cartucho, acompanhadas de comentários explicando por que elas foram removidas. Algo que fazia todo sentido como bônus de serviço por assinatura, mas jamais como produto físico. Outros jogos inéditos recuperados incluem:
Um port do jogo dos Flintstones publicado pela Ocean
Uma versão específica de Mega Drive de BreakThru, do próprio Alexey Pajitnov (criador de Tetris)
Iron Hammer, jogo de combate com tanques em primeira pessoa ligado ao cancelado Sega VR
Um jogo dos Berenstain Bears, portado do console educativo Sega Pico para o Mega Drive
Alguns deles até quebram em certos emuladores, justamente por carregarem código híbrido entre Pico e Mega Drive. Pura loucura técnica.
Protótipos que nunca vimos… até agora
Talvez a parte mais emocionante esteja nos protótipos totalmente inéditos. Um deles é Popeye in High-Seas High-Jinks, da Technos americana. O jogo está praticamente completo, com gráficos caprichados, cutscenes prontas e gameplay sólido. É aquele tipo de jogo que você olha e pensa: “como isso nunca saiu?”
Outro caso é Shadows of the Wind, da britânica Images Software. Aqui o jogo está claramente em estado pré-alfa, com tanto conteúdo faltando que provavelmente foi usado apenas como pitch para publishers.
Mesmo assim, é ouro histórico.
O navegador de internet que ninguém sabia que existia
Agora segura essa. Entre os achados está algo chamado Sega Channel Genesis Web Blaster. Um navegador de internet funcional para o Mega Drive. Sim. Um browser. Num console de 16 bits. Ele nunca foi liberado ao público, mas estava pronto. Inclui página inicial, links familiares e até imagens offline para simular navegação. Pode muito bem ter sido o primeiro navegador já feito para um videogame.
E tem mais: o código-base do Web Blaster parece ser o mesmo usado em Michael Jordan: Chaos in the Windy City, jogo de 1994. Ambos foram desenvolvidos pela Foley High-Tech. Internet, basquete e Mega Drive compartilhando o mesmo DNA. Só nos anos 90 mesmo.
Apps, revistas falsas e até protótipos internacionais
Além disso tudo, o pacote traz:
Testes de interface com visual mais cartunesco
Um mock-up de revista digital chamada HookedIn
Um protetor de tela com aquário virtual animado
ROMs de teste pensadas para Chile e Argentina
Tem até ROMs de “videohints”, onde o jogo se joga sozinho para mostrar dicas e estratégias. Uma delas, de Earthworm Jim, escondia um código secreto que exigia ligar para um número da Sega para ganhar prêmios. O código está lá… mas ninguém ainda conseguiu ativá-lo jogando.
Mortal Kombat sem Sub-Zero. Street Fighter sem Ken
Por conta do limite de 3MB por ROM, alguns jogos eram divididos em duas partes.
O resultado?
Mortal Kombat 3 onde Liu Kang não pode enfrentar Sub-Zero
Super Street Fighter II sem… Ken
Sim. Ken foi simplesmente apagado da versão do Sega Channel.
Essas versões agora podem ser jogadas novamente, com toda a estranheza que isso carrega.
História salva do esquecimento
Segundo Phil Salvador, diretor da biblioteca da VGHF, as ROMs foram testadas tanto em hardware original quanto em emuladores. Algumas ainda têm problemas em soluções específicas, mas o material está seguro. A recuperação envolveu cartuchos de debug, CDs, fitas de backup e até uma ferramenta de descriptografia do Sega Channel que estava esquecida no GitHub desde 2017. Literalmente escondida à vista de todos.
É preservação feita na unha. Com amor. E com paciência.
Quando preservar é um ato de carinho
O Sega Channel sempre foi um vislumbre de futuro que chegou cedo demais. Agora, décadas depois, esse futuro foi resgatado do limbo. Para quem cresceu com Mega Drive, para quem ama a história dos videogames, essa notícia não é só importante. Ela é emocionante.
História salva. Memória preservada.
E o coração… quentinho. 💙
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