A cena é quase cinematográfica. Lá em 2012, quando o mundo discutia Mass Effect 3 e Samuel L. Jackson comandava o antigo Spike Video Game Awards, Harvey Smith e Raphael Colantonio embarcavam num jatinho da Bethesda rumo a Los Angeles. Dishonored estava indicado em várias categorias, e a dupla viveu aquele momento épico que qualquer desenvolvedor sonha: luzes, tapete vermelho, Jessica Alba entregando o prêmio. Tudo pago pela publisher.
Treze anos depois, o palco é o mesmo, mas agora com Geoff Keighley e a TGA. Mas o mundo ao redor mudou demais. A indústria passa por demissões em massa, estúdios sendo fechados e um clima de incerteza que vira manchete quase todo mês. E, nesse novo cenário, até estar presente no maior palco de celebração dos games virou um privilégio. Literalmente. Muitos desenvolvedores indicados ao Game Awards simplesmente não conseguem pagar para ir ao evento.
Organizar o “Oscar dos games” parece glamouroso, mas por trás das câmeras tem custo, logística e uma plateia limitada a pouco mais de 7 mil lugares. Como não há comerciais de TV para ajudar nos custos, o evento depende de trailers pagos (e cada vez mais caros): este ano, um slot de 60 segundos pode chegar a 450 mil dólares. Três minutos passam de 1 milhão. Isso já deixa claro o tipo de empresa que pode se promover ali.
O problema começa quando falamos de quem deveria ser o foco da noite: os desenvolvedores indicados. Vários relatos apontam que o Game Awards entrega apenas duas entradas gratuitas por estúdio nomeado. Duas. Para equipes que, muitas vezes, passam de 50, 100 ou 300 pessoas. Quem quiser levar mais alguém precisa comprar ingressos… do mesmo lote vendido ao público geral. E não existe “desconto para indicados”.
Alguns estúdios, como a francesa Sandfall Interactive, criadora de Clair Obscur: Expedition 33 (o maior número de indicações da história do evento), compraram ingressos a preço cheio - cerca de 300 dólares cada - para permitir que mais membros da equipe pudessem ir. Outras equipes simplesmente não têm essa condição. Há também casos ainda mais bizarros. Um diretor indicado pagou cerca de 700 dólares do próprio bolso para não perder “uma chance única na vida”.
Outro desenvolvedor, que saiu do estúdio após concluir o jogo, sequer tinha acesso a convites. Tentou comprar… não achou dois assentos juntos por menos de 600 a 1000 dólares cada. Acabou apelando para o programa de seat filler. Ou seja: ele só conseguiu entrar como “enchimento de cadeira”. A plateia do “Oscar dos games” misturada entre fãs, scalpers e desenvolvedores sem assento.
O Game Awards vende ingressos populares desde 2019, e isso transforma a atmosfera da noite em algo diferente do que se vê em premiações tradicionais. Os ingressos esgotam rápido, e muitos acabam na mão de revendedores. Enquanto isso, profissionais indicados ao prêmio precisam disputar assentos com fãs dispostos a pagar caro só para ver anúncios em primeira mão.
O curioso é que o evento também reserva vagas para seat fillers - voluntários chamados para ocupar lugares vazios na câmera, com regras rígidas de roupa, comportamento e horários. Muitos devs, ironicamente, têm mais chances entrando dessa forma do que pelo próprio mérito profissional.
O contraste entre glamour e realidade
A frustração não é sobre rivalidade entre fãs e desenvolvedores. É sobre o paradoxo: o evento que deveria homenagear o trabalho desses profissionais é justamente aquele que muitos deles não conseguem frequentar.
E, claro, comparar o Game Awards com premiações como BAFTA só aumenta o contraste. Lá também existe venda de convites, mas o ambiente é pensado para celebrar os criadores e reconhecer suas obras com reverência. Para muitos, a experiência é descrita como muito mais honesta e acolhedora.
Enquanto isso, Keighley tenta equilibrar dois mundos que já se afastaram demais: a celebração artística e o espetáculo publicitário. Uma parte da audiência quer apenas os trailers. Outra quer ver os criadores recebendo reconhecimento. No meio disso tudo, há pessoas que trabalharam durante anos em um projeto e que, no fim, assistem de casa porque não têm condições de pagar para assistir ao próprio momento histórico.
A indústria está diferente. Os eventos estão diferentes. E talvez seja hora do Game Awards repensar para quem essa festa realmente é.
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