O Xbox entrou oficialmente em uma nova era. Após a saída de Phil Spencer, a nova CEO da divisão, Asha Sharma, e o recém-promovido Chief Content Officer Matt Booty falaram pela primeira vez em profundidade sobre o futuro da marca. E o recado principal é direto: o plano é trazer o Xbox de volta ao seu espírito original.

Mas o caminho até lá… promete ser cheio de ajustes.
Logo de cara, Sharma deixou claro que o conceito de “Return to Xbox” não é apenas marketing. Segundo ela, a ideia é resgatar o DNA que construiu a marca lá atrás, aquele espírito meio renegado, meio rebelde, que sempre definiu a plataforma.
“Para mim, o espírito de 'Return to Xbox' é sobre retornar ao espírito que fundamentou a equipe… É aquele espírito de surpresa, é o espírito de construir algo que ninguém mais estava disposto a tentar - já ouvi palavras como 'renegado', 'rebelião' e 'diversão' sendo usadas. Era nisso que eu estava pensando quando escrevi isso.”
E sim… o console continua no centro da estratégia. Em meio a anos de especulação sobre o possível enfraquecimento do hardware Xbox, Sharma fez questão de mandar um sinal bem claro para a comunidade.
Ela reconheceu que jogadores investiram décadas e milhares de dólares no ecossistema e afirmou que proteger esse investimento é prioridade máxima. Segundo a executiva, o Xbox começa pelo console e continuará assim.
“Acredito que nossos fãs e jogadores mais fiéis do Xbox investiram até 25 anos de suas vidas nesses universos e em nosso console. Quero garantir que todos saibam que estou comprometido com o Xbox, começando pelo console. Vamos continuar atendendo os jogadores onde eles estão - o mundo continua a evoluir e mudar."
"Vamos garantir que o Xbox seja um ótimo lugar para desenvolvedores e jogadores. Queremos investir na redução da divisão artificial entre os diferentes tipos de dispositivos que eles desejam usar conosco… Para mim, acredito que o Xbox começa com seus fãs, e cresceremos a partir daí. É isso que eu queria sinalizar com o “retorno” ao Xbox.”
Console ainda é prioridade
Mas há um porém importante. A CEO também reforçou que a empresa quer reduzir as barreiras entre dispositivos. Em outras palavras: o Xbox continuará sendo expandido para além do console, mas sem abandonar suas raízes.
“Os jogadores de Xbox investiram milhares de dólares, em dinheiro e tempo também - é extremamente importante para mim entender isso e proteger esse investimento. Estou comprometido com o 'retorno ao Xbox', e isso começa com o console, começa com o hardware. Vocês ouvirão mais sobre isso em breve, teremos alguns anúncios a caminho… Preciso entender melhor como isso pode se concretizar, quais decisões foram tomadas, o que precisamos fazer daqui para frente, e preciso de um pouco de tempo e espaço para isso.”
É aquele equilíbrio delicado que a Microsoft vem tentando encontrar há anos.
Nada está fora da mesa
Um dos pontos mais interessantes da entrevista foi a postura cautelosa de Sharma sobre mudanças estratégicas.
Ela basicamente disse: “O plano é o plano até deixar de ser o plano.”.
“O que acontece com outros produtos que estão fazendo sucesso é que eles construíram comunidades realmente incríveis com seus públicos. Nós somos os responsáveis por muitas comunidades, e isso já dura décadas. O que faz uma comunidade ser uma comunidade é construir conteúdo para essa essência. O que eu não quero é que nenhum criador na Xbox dilua seu foco para perseguir uma comunidade emergente… É muito importante que as pessoas se mantenham fiéis à sua essência enquanto estão criando conteúdo.”
A nova CEO afirmou que ainda está estudando profundamente as decisões tomadas nos últimos anos, analisando dados e entendendo o “porquê” de cada movimento antes de mexer em qualquer coisa grande.
“O que aprendi ao longo da minha carreira desenvolvendo plataformas é que existem basicamente duas coisas que fazem uma plataforma ser excelente: a qualidade do produto que você entrega ao usuário principal e a integridade das decisões que o sustentam. Existe uma grande comunidade no Xbox e vamos analisar a melhor maneira de atendê-la.”
“Acredito que qualquer nova tecnologia traz consigo possibilidades como ferramenta, mas ainda mais importante, especialmente agora, é que precisamos definir limites para o que não faremos do. Foi isso que tentei fazer quando compartilhei minha carta de abertura… Não inundarei nosso ecossistema com conteúdo de baixa qualidade. Não teremos produção descuidada, não teremos trabalhos derivados. Acredito profundamente nas palavras que compartilhei anteriormente.”
Ou seja, quem espera uma virada brusca imediata pode ter que segurar a ansiedade. Matt Booty reforçou essa ideia e pediu paciência à comunidade, deixando claro que mudanças drásticas no curto prazo não estão previstas.
Xbox não quer virar só publisher
Com a estratégia multiplataforma ganhando força nos últimos anos, muita gente passou a temer que o Xbox acabasse virando apenas uma publicadora de jogos. Booty tratou de apagar esse incêndio.
Segundo ele, toda a estrutura dos estúdios Xbox Game Studios continua profundamente integrada ao hardware e ao ecossistema first-party. Ele destacou que a equipe trabalha em conjunto com decisões de hardware desde cedo e que a empresa não pretende se afastar desse modelo.
“Nosso sistema de estúdios é totalmente voltado para a produção first-party. Não fomos criados apenas para ser uma editora. É fundamental para nossa parceria com a plataforma Microsoft participar das decisões iniciais sobre hardware… Temos o compromisso de ser uma editora first-party de jogos em parceria com nossa equipe de plataforma first-party.”
“O que acontece com outros produtos que estão fazendo sucesso é que eles construíram comunidades realmente incríveis com seu público… O que eu não quero é que nenhum criador na Xbox dilua seu foco para perseguir uma comunidade emergente.” (O sentimento de Sharma foi reiterado por Matt no contexto.)
“Não sofremos pressão da Microsoft, não há diretrizes sobre IA a caminho down. Nossas equipes têm liberdade para usar quaisquer tecnologias que possam ser benéficas, seja para ajudar a escrever código ou verificar erros - coisas mais voltadas para o processo de produção. No fim das contas, como disse Asha, estamos comprometidos com a arte feita por pessoas. A tecnologia serve apenas como apoio a isso.”
“Como grupo, os desenvolvedores de jogos estão sempre ansiosos para adotar novas tecnologias. Quando o Photoshop surgiu, levou cerca de um mês para que ele aparecesse em todos os estúdios de jogos do planeta, de tão útil que era… Acho que temos um dos melhores portfólios do mercado, mesmo na indústria do entretenimento em geral, em termos de abrangência. Somos dedicados a isso… Acredito que quase tudo que é 'grande' começou pequeno. Não podemos perder a capacidade de ter esses espaços onde pequenas ideias podem se transformar em algo grandioso. O ambiente criativo que nos permite apostar e correr riscos criativos precisa fazer parte da cultura do Xbox. Estamos comprometidos, nosso sistema de estúdios foi construído para isso.”
Em resumo: pelo menos oficialmente, o Xbox ainda se vê como plataforma completa, não só como distribuidora.
IA vai ajudar… mas não vai criar jogos sozinha
Outro tema quente foi inteligência artificial. Considerando o histórico de Sharma na divisão de IA da Microsoft, o assunto era inevitável. A executiva adotou um tom firme ao dizer que a tecnologia será tratada como ferramenta de apoio, não como substituta da criatividade humana.
“Não vamos inundar nosso ecossistema com conteúdo derivativo ou descuidado”, afirmou.
Booty reforçou que não existe nenhuma diretiva da Microsoft obrigando o uso de IA nos estúdios. Segundo ele, as equipes têm liberdade total para usar a tecnologia apenas onde fizer sentido, principalmente em áreas de produção como código e testes.
A mensagem aqui foi bem clara: jogos continuam sendo feitos por pessoas.
Xbox quer manter espaço para jogos grandes… e pequenos
Um ponto que deve agradar muita gente é o compromisso declarado com a diversidade do portfólio.
Booty descreveu o Xbox como uma “federação de estúdios” capaz de produzir desde projetos experimentais até gigantes como Call of Duty. Segundo ele, preservar esse espaço para ideias menores é fundamental porque muitos sucessos começaram justamente assim.
Ele até citou que uma das partes mais legais do trabalho é ver pitches malucos nascerem e crescerem dentro da estrutura da empresa. Boa notícia para quem curte quando o Xbox aposta fora da curva.
Turnê interna já começou
Sharma e Booty já estão fazendo uma verdadeira peregrinação pelos estúdios da casa, incluindo equipes de:
• Minecraft
• Bethesda
• Activision
• e outros braços da divisão
O objetivo é entender de perto a operação antes de tomar decisões maiores. A CEO foi honesta ao admitir que ainda está em fase intensa de aprendizado, algo que, convenhamos, muita gente queria ouvir depois da turbulência recente.
Mensagem final aos fãs
No encerramento, Sharma fez questão de homenagear Phil Spencer e prometeu manter o foco em decisões centradas nos jogadores e criadores. Ela reconheceu que o Xbox atravessa desafios reais, mas garantiu que a meta agora é provar resultados na prática.

“Phil Spencer é um ser humano notável e um líder extraordinário, e acredito que, quando assumiu o cargo em 2014, ele mudou a cultura do Xbox para priorizar decisões orientadas pelos jogadores e pelos criadores. Pretendo honrar e manter esse legado.”
Nas palavras dela: é hora de “prova acima de promessa”.
“Sabemos que a empresa passou por alguns desafios. Vou usar minha experiência e a dos líderes com profundo conhecimento do setor de jogos para nos ajudar a expandir os negócios e garantir que tenhamos 25 anos incríveis pela frente… Vou ouvir, aprender e comunicar o que estamos observando e fazendo.
E fechou com a frase que resume bem o momento:
“Este time já trouxe o Xbox de volta antes. E eu estou aqui para ajudar a fazer isso novamente.”
Agora, xará… aqui entre nós: Estamos diante de um verdadeiro renascimento… ou só de mais um capítulo da grande novela verde?
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