A Denuvo decidiu levar a guerra contra a pirataria para os tribunais. A empresa entrou com uma ação em um tribunal federal dos Estados Unidos contra o cracker conhecido online como “voices38”, acusando o responsável por trás do nome de contornar as proteções Anti-Tamper da Denuvo em pelo menos 26 jogos.

O processo foi apresentado na última segunda-feira no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte da Califórnia. E existe uma peculiaridade importante logo no início da história: a Denuvo não sabe oficialmente quem é voices38.
Por isso, o processo identifica o acusado como um indivíduo ou entidade desconhecida, acompanhado de outros dez réus identificados apenas como “Doe defendants”.
A estratégia da empresa, portanto, não parece ser apenas processar o cracker, mas também descobrir sua identidade.
Denuvo quer descobrir quem está por trás de voices38
Segundo a ação, a pessoa que utiliza o nome voices38 teria se especializado em engenharia reversa e na remoção das verificações do Anti-Tamper da Denuvo em jogos protegidos pelo sistema.

A empresa afirma que o responsável publicou cracks para uma grande variedade de títulos, desde jogos mais antigos, como FIFA 20 e PES 2020, até lançamentos mais recentes, incluindo Hogwarts Legacy, Black Myth: Wukong, Resident Evil Requiem e Doom: The Dark Ages.
A lista apresentada no processo contém 26 jogos:
1. Need for Speed Heat (Electronic Arts)
2. EA Sports FIFA 20 (Electronic Arts)
3. Star Wars: Squadrons (Electronic Arts)
4. Need for Speed: Hot Pursuit Remastered (Electronic Arts)
5. EA Sports FIFA 21 (Electronic Arts)
6. Hi-Fi Rush (Bethesda)
7. F1 2021 (Electronic Arts)
8. Dead Space Remastered (Electronic Arts)
9. Doom: The Dark Ages (Bethesda)
10. Mafia: The Old Country (2K Games)
11. LEGO Batman: Legacy of the Dark Knight (WB Games)
12. Hogwarts Legacy (WB Games)
13. Total War: Three Kingdoms (SEGA)
14. Starlink: Battle for Atlas (Ubisoft)
15. Shining Resonance Refrain (SEGA)
16. PES 2020 (Konami)
17. Shin Megami Tensei III Nocturne HD Remaster (SEGA)
18. Scott Pilgrim vs. The World (Ubisoft)
19. Anno 1800 (Ubisoft)
20. Sonic Frontiers (SEGA)
21. Assassin’s Creed Mirage (Ubisoft)
22. Pragmata (Capcom)
23. Resident Evil Requiem (Capcom)
24. Black Myth Wukong (Game Science)
25. Stellar Blade (Sony)
26. 007 First Light (IO Interactive)
E a própria Denuvo reconhece que essa relação já estava desatualizada quando a ação foi apresentada. Nas últimas semanas, voices38 teria publicado cracks adicionais, incluindo versões de Persona 3 Reload e Star Wars Outlaws.
A Denuvo não está processando por direitos autorais
Existe uma diferença jurídica importante nessa história.
A Denuvo não é proprietária dos direitos autorais desses jogos. Portanto, a empresa não está processando voices38 por uma suposta violação tradicional de copyright sobre os títulos.
A ação utiliza as disposições anti-circumvention do DMCA, a legislação americana que, entre outras coisas, proíbe contornar mecanismos digitais utilizados para controlar o acesso a obras protegidas por direitos autorais, além de restringir a distribuição de determinadas ferramentas e instruções destinadas a facilitar esse tipo de procedimento.
A Denuvo argumenta que possui legitimidade para entrar com a ação porque sua atividade comercial depende justamente da venda da tecnologia Anti-Tamper para empresas que utilizam sua proteção, incluindo grandes publishers como EA, Ubisoft, Capcom e Sony.
Na visão apresentada pela empresa no processo, o trabalho de voices38 prejudica diretamente esse negócio ao remover as barreiras digitais que a Denuvo vende para proteger os jogos.
Segundo o material apresentado, esta seria a primeira vez que a Denuvo processa diretamente um cracker em um tribunal dos Estados Unidos.
Os proprietários dos jogos aparecem mencionados no processo, mas não fazem parte da ação como autores.
Reddit, Discord e Steam podem revelar a identidade
É aqui que a história começa a ficar particularmente interessante.
Apesar de voices38 ser uma identidade anônima, a Denuvo afirma ter reunido informações que podem ajudar a descobrir quem está por trás do nome. O processo cita uma identificação de usuário do Discord, uma conta no Reddit e sete perfis da Steam que a empresa acredita estarem relacionados ao cracker.
A lógica é relativamente direta. Para realizar determinados testes e produzir cracks, jogos precisam estar disponíveis para o responsável. No caso da Steam, compras podem estar associadas a informações de pagamento e outros dados capazes de identificar o proprietário da conta.
Com o processo aberto, a Denuvo poderá solicitar autorização judicial para emitir intimações a empresas como Valve, Reddit e Discord, buscando informações associadas às contas mencionadas.
Até o momento, não havia um pedido de descoberta desse tipo registrado no processo, mas a expectativa é que essa etapa possa acontecer posteriormente.
A Denuvo também pede indenização e uma ordem judicial que impeça voices38 de contornar suas proteções Anti-Tamper não apenas nos jogos citados, mas também em futuros jogos que ainda nem foram lançados.
E voices38 já respondeu ao processo
Pouco depois da notícia se espalhar, o próprio voices38 apareceu no Reddit para comentar o caso.
A resposta foi curta e bastante direta:

“Está tudo bem. Tudo continuará como de costume..”
Ou seja, segundo o próprio responsável pela identidade, os trabalhos continuarão normalmente.
Agora resta descobrir se isso realmente acontecerá.
O que acontece daqui para frente?
O processo ainda está em seus estágios iniciais e não há garantia de que a Denuvo conseguirá identificar quem está por trás de voices38.
Crackers experientes normalmente tomam medidas para proteger sua identidade, e mesmo que intimações sejam enviadas para Reddit, Discord ou Valve, não é certo que as informações obtidas sejam suficientes para chegar a uma pessoa específica.
Ainda assim, uma decisão favorável à Denuvo poderia ter consequências mais amplas. Caso a empresa consiga uma decisão judicial e uma ordem de bloqueio, isso poderia facilitar a remoção de contas, links e outros meios utilizados para distribuir os cracks.
Também existe o efeito de dissuasão. Um processo desse tipo deixa claro para outros envolvidos nesse cenário que a Denuvo está disposta a tentar utilizar diretamente a legislação americana contra quem contorna seu sistema de proteção.
Por enquanto, porém, a disputa está apenas começando.
De um lado está uma empresa que vende uma das tecnologias de proteção contra pirataria mais utilizadas na indústria. Do outro, uma identidade anônima que conseguiu aparecer repetidamente no radar da companhia ao remover justamente a proteção que ela comercializa.
E agora existe uma pergunta que pode ser mais importante do que qualquer crack da lista: quem é voices38?
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Essa história tem uma cara absurda de thriller tecnológico dos anos 2000.
A Denuvo olha para um sujeito chamado voices38, vê uma coleção de cracks passando pela internet e decide: “beleza, vamos para o tribunal descobrir quem é esse cara”.
E o mais curioso é que o processo não começa com a identidade do acusado. Começa praticamente com um “Pessoa Misteriosa 1”, enquanto Reddit, Discord e Steam aparecem como possíveis caminhos para chegar até ele.
Também chama atenção o fato de que voices38 não parece ter ficado particularmente assustado com a notícia. A resposta foi basicamente: “está tudo bem, vai continuar normalmente”.
Agora vamos ver até onde essa confiança vai.
Do ponto de vista jurídico, o caso é importante porque coloca a própria lei anticircunvenção do DMCA no centro da disputa e pode estabelecer um precedente interessante para a maneira como empresas de DRM enfrentam crackers diretamente nos Estados Unidos.
E para quem acompanha a velha guerra entre DRM e pirataria desde a época dos CDs, DVDs e executáveis modificados, essa certamente é uma daquelas histórias para acompanhar capítulo por capítulo.
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