Tem desenvolvedor que olha para uma tecnologia controversa e prefere passar longe dela. Tetsu Okano decidiu fazer exatamente o contrário.

O veterano conhecido pelo trabalho em Segagaga resolveu colocar a inteligência artificial generativa no centro de seu próximo projeto, HIJURA SCARLET GEAR, um novo shooter 2D em estilo 16-bits que parece ter saído diretamente de uma máquina de arcade japonesa dos anos 90.
O jogo está sendo desenvolvido pela HUGA Inc. e coloca o jogador no controle de Hijura, equipada com a Scarlet Gear, para enfrentar hordas de criaturas grotescas conhecidas como Dokugan.
O arsenal inclui lança-chamas, mísseis teleguiados, pulo duplo e dash com invencibilidade, tudo dentro de uma proposta assumidamente exagerada de run-and-gun arcade. A ideia é simples: jogar muita coisa na tela, apertar o botão de atirar e deixar o caos trabalhar.
“Eu levei a IA ao limite”
É aqui que HIJURA SCARLET GEAR começa a ficar realmente interessante. Okano, que também trabalha sob o nome Zorge Ichizo e acumula 35 anos de experiência na indústria, não está tentando esconder o uso de inteligência artificial. Muito pelo contrário.
O desenvolvedor afirma que queria descobrir o que acontece quando um criador experiente realmente se entrega à tecnologia e a utiliza até o limite. Ele sabe que IA generativa é um dos assuntos mais controversos da indústria atualmente e reconhece que algumas pessoas podem não gostar da decisão. Ainda assim, a resposta dele é praticamente um “e daí?”. Okano diz que nunca foi alguém conhecido por jogar pelo seguro.
A própria HUGA apresenta o projeto como um “AI-Toxic showdown”, uma espécie de batalha entre a visão individual de um desenvolvedor veterano e as possibilidades oferecidas pela inteligência artificial. A pergunta que o estúdio coloca é justamente se a personalidade de Okano continuará dominando o projeto ou se a tecnologia acabará ditando o resultado.
E isso é uma abordagem bem diferente daquela que normalmente encontramos quando o assunto é IA nos games. Em vez de tentar esconder a ferramenta ou tratar sua utilização como algo que precisa ser explicado discretamente, a HUGA colocou a tecnologia praticamente na capa do projeto.
IA também virou parte da brincadeira
Na página do jogo no Steam, a HUGA informa abertamente que utiliza inteligência artificial generativa tanto para assistência na programação quanto para geração de imagens. A empresa também explica que os materiais gerados não são simplesmente despejados no jogo sem intervenção: segundo o estúdio, eles passam por direção criativa, edição, processamento e reconstrução antes de serem incorporados ao projeto.
A empresa também afirma seguir as leis aplicáveis e as regras das plataformas de distribuição, incluindo as exigências de divulgação relacionadas ao conteúdo gerado por IA.
Ou seja, gostando ou não da utilização da tecnologia, pelo menos existe uma coisa que não está acontecendo aqui: esconder o jogo.
E talvez seja justamente essa franqueza que torne HIJURA SCARLET GEAR tão curioso. A indústria passou os últimos anos discutindo intensamente sobre inteligência artificial, enquanto alguns estúdios preferem evitar falar sobre o assunto. Okano resolveu transformar a própria controvérsia em parte da identidade do jogo.
Um run-and-gun que abraça o exagero
E, para completar a receita, o jogo parece ter sido criado com uma filosofia que combina perfeitamente com essa experiência. A HUGA descreve HIJURA SCARLET GEAR como um “bakage”, termo japonês usado para algo propositalmente absurdo, exagerado e completamente fora da curva.
Não existem configurações tradicionais de dificuldade. A proposta é que qualquer pessoa consiga avançar simplesmente abusando das armas, enquanto jogadores mais experientes podem criar seus próprios desafios, como terminar sem sofrer dano, limitar o uso de determinadas armas ou perseguir pontuações cada vez maiores.
É quase como pegar tudo aquilo que tornou os antigos run-and-gun tão divertidos e dizer: “vamos colocar mais um pouco”.
E mais um pouco.
E mais um pouco.
Até explodir. 😂
A estética 16-bit, a ação lateral, os inimigos grotescos e o exagero proposital fazem HIJURA SCARLET GEAR parecer menos interessado em reproduzir perfeitamente um jogo antigo e mais interessado em reproduzir aquela sensação de quando os desenvolvedores simplesmente tinham uma ideia maluca e iam até o fim com ela.
O experimento começa agora
Ainda não existe uma data de lançamento definida para HIJURA SCARLET GEAR, mas o jogo já possui página oficial no Steam e está sendo apresentado como um dos projetos mais incomuns envolvendo inteligência artificial generativa na cena independente atual.
No fim das contas, talvez a parte mais interessante nem seja descobrir se a IA consegue ajudar a criar um jogo. Isso já está acontecendo em diferentes níveis pela indústria.
A pergunta de Okano é outra: o que acontece quando você entrega uma ferramenta controversa para alguém com 35 anos de experiência e deixa esse sujeito brincar com ela sem medo?
A resposta, pelo menos em HIJURA SCARLET GEAR, parece ser um jogo 16-bit completamente descontrolado, cheio de lança-chamas, mísseis, monstros grotescos e uma quantidade generosa de IA.
E olha... depois de tanta discussão sobre inteligência artificial, talvez seja justamente esse tipo de experimento que valha a pena acompanhar.
Não porque a IA esteja certa ou errada.
Mas porque, pela primeira vez, alguém parece estar dizendo: “vamos descobrir até onde essa coisa consegue ir.”
Clima SussuWorld
É impossível olhar para HIJURA SCARLET GEAR e não achar a situação curiosa. Um veterano que poderia tranquilamente viver de repetir fórmulas conhecidas decidiu fazer o contrário: pegou uma das tecnologias mais polêmicas do momento, colocou no centro do desenvolvimento e ainda transformou a própria controvérsia em parte do conceito do jogo.
Se vai sair algo genial ou simplesmente uma bela maluquice movida a IA, só vamos descobrir quando pudermos colocar as mãos no jogo.
Mas uma coisa já dá para dizer: coragem não faltou.
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