Hideki Kamiya: Desenvolvedores de Resident Evil perderam a noção de quão assustadores são seus jogos !!

Se existe alguém que pode falar sobre Resident Evil com propriedade, esse alguém é Hideki Kamiya. Diretor do Resident Evil 2 original e um dos responsáveis pelo primeiro jogo da franquia, o designer tem uma relação um tanto curiosa com o terror: ele simplesmente não gosta de jogos assustadores.

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E agora Kamiya voltou a defender uma ideia que, apesar de parecer uma piada à primeira vista, é levada por ele completamente a sério: a Capcom deveria colocar nos próximos Resident Evil uma opção para reduzir o nível de horror.

O motivo? Segundo Kamiya, a equipe responsável pela franquia pode ter ficado tão acostumada com as próprias criaturas e cenas grotescas que perdeu a percepção de quanto aquilo pode ser assustador para quem está do outro lado da tela.

Kamiya não conseguiu terminar Resident Evil Requiem

Em entrevista recente à VGC, Kamiya explicou que sua sugestão de criar um modo menos assustador não era uma brincadeira.

Muito pelo contrário.

Ele contou que queria jogar Resident Evil Requiem, especialmente porque o jogo marca o retorno de Leon Kennedy a Raccoon City e revisita acontecimentos relacionados ao Resident Evil 2 original, título que ele próprio dirigiu.

Só que Kamiya não conseguiu.

O jogo foi simplesmente assustador demais para ele.

“Eu nunca fui fã de terror. Desde pequeno, nunca consegui lidar com isso.”

Segundo o designer, a situação ficou ainda mais complicada com a evolução tecnológica dos games. Com gráficos cada vez mais realistas e uma capacidade muito maior de representar criaturas, ambientes e situações perturbadoras, Kamiya acredita que os desenvolvedores de Resident Evil podem ter ficado “anestesiados” em relação ao próprio trabalho.

E existe uma lógica interessante nisso.

A equipe passa anos olhando para o mesmo monstro, a mesma criatura, a mesma animação e a mesma cena durante o desenvolvimento. Depois de tanto tempo, aquilo que deveria provocar medo provavelmente começa a parecer apenas mais uma terça-feira no escritório.

Para Kamiya, o problema é que o jogador não possui esse filtro.

“Eles não sabem o quanto os jogos são assustadores”

Kamiya afirma que conversa pessoalmente com integrantes das equipes de Resident Evil e costuma dizer diretamente que os jogos são assustadores demais.

A resposta que recebe, segundo ele, costuma ser algo na linha de:

“O quê? Não é tão assustador assim!”

E é justamente isso que o designer considera curioso.

Kamiya diz que recebe códigos de todos os novos Resident Evil e frequentemente agradece pelo jogo, mas avisa que provavelmente não conseguirá jogá-lo porque é assustador demais.

A equipe então responde tentando convencê-lo de que ele consegue encarar.

O problema é que ele já sabe que não consegue. 

Por isso, sua proposta não é transformar Resident Evil em uma experiência sem terror. Ele quer simplesmente que o horror possa ser tratado como uma opção, permitindo que pessoas que não conseguem lidar com o gênero também possam aproveitar os jogos.

E Kamiya tem um exemplo bastante concreto de onde a Capcom poderia buscar inspiração.

A solução pode estar em Bayonetta

O designer lembra das opções que implementou na série Bayonetta.

Como o jogo foi projetado para jogadores interessados em ação extremamente técnica, Kamiya criou o Very Easy Automatic, permitindo que pessoas menos experientes também pudessem aproveitar a aventura.

Em Bayonetta 3, ele também trabalhou com uma opção chamada Naïve Angel Mode, que reduz o nível de exposição durante determinadas cenas e ataques da protagonista.

Para Kamiya, não existe motivo para Resident Evil não seguir uma filosofia semelhante.

Só que, em vez de diminuir a dificuldade, a ideia seria simplesmente baixar os “controles de terror”.

E as soluções sugeridas por ele são... bastante criativas. 

Sacos de papel nos zumbis?

Kamiya diz que nem seria necessário criar um modo extremamente elaborado.

A Capcom poderia, por exemplo, deixar os rostos dos zumbis menos assustadores.

Ou colocar uma iluminação mais agradável nos ambientes escuros.

Ou, em sua sugestão mais maravilhosa, colocar sacos de papel na cabeça dos zumbis.

E tem mais:

sem sangue.

Pronto.

Segundo Kamiya, algumas pequenas alterações já poderiam fazer a diferença para alguém como ele conseguir chegar até o final.

É uma proposta obviamente bem-humorada na forma como foi apresentada, mas o ponto principal é bastante sério: o jogador deveria poder escolher quanto horror quer experimentar, sem necessariamente precisar abandonar um jogo inteiro por causa disso.

O criador de Resident Evil 2 também perdeu o medo da própria criação

Existe ainda uma ironia deliciosa nessa história.

Kamiya explica que, por conhecer o Resident Evil original e Resident Evil 2 “como a palma da mão”, esses jogos acabaram deixando de assustá-lo.

Ele conhecia cada corredor, cada susto e cada situação.

Mas isso também reforça seu argumento.

Justamente por ter participado da criação da franquia, Kamiya entende como é fácil para uma equipe perder a perspectiva do jogador que está vendo aquilo pela primeira vez.

E ele chegou a falar diretamente com Takeuchi, produtor da série, dizendo:

“Seus jogos são assustadores demais!”

A reação?

“Sério?! Não são tão assustadores assim!”

Kamiya aparentemente está travando uma batalha que ninguém mais dentro da Capcom parece disposto a reconhecer. 

Clima SussuWorld 🎮👻

Essa entrevista tem uma das melhores propostas que eu já vi para Resident Evil:

Modo Normal: Resident Evil.
Modo Kamiya: zumbis com saco de papel na cabeça, luz ambiente agradável e zero sangue. 

Mas brincadeiras à parte, existe uma discussão muito boa escondida nessa ideia.

Resident Evil construiu sua identidade justamente em cima do medo, então obviamente ninguém quer que a Capcom transforme a série em um passeio pelo parque. Mas acessibilidade também significa permitir que mais pessoas experimentem uma obra sem necessariamente remover aquilo que a torna especial para os outros.

E Kamiya não está pedindo para acabar com o horror. Ele está dizendo: “Deixa eu desligar um pouco esse negócio, porque eu quero jogar também!”

O mais engraçado é que estamos falando do diretor de Resident Evil 2, um dos jogos que ajudaram a definir o terror de sobrevivência.

O homem ajudou a criar o trauma.

Agora está pedindo à Capcom uma versão com saco de papel nos zumbis.

A indústria de games realmente nunca decepciona.

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