David Jaffe, criador de God of War e responsável por dar vida a Kratos, resolveu entrar na discussão sobre o visual dos personagens de Marvel’s Wolverine e não economizou nas palavras.

O ex-desenvolvedor da PlayStation afirmou estar completamente desconcertado com algumas das escolhas visuais feitas pela Insomniac Games, a ponto de questionar publicamente Bill Rosemann, um dos principais responsáveis pela Marvel Games, sobre o caminho artístico adotado no jogo.
A crítica de Jaffe, porém, vai além de uma discussão sobre personagens femininas ou representatividade. Segundo ele, o problema está naquilo que considera uma falta de sintonia entre a direção visual do jogo e a identidade tradicional da Marvel.
“Bill Rosemann, o que está acontecendo?”
Jaffe fez questão de deixar claro que não considera sua crítica uma reação contra mudanças na representação feminina ou contra iniciativas de diversidade.
“Existem pessoas no mundo dos games que provavelmente são mais progressistas do que eu. Eu apoio mudar o entretenimento para que as mulheres não estejam apenas ou sempre ali para agradar aos olhos. Eu apoio o DEI. Sou woke pra caramba. Direitos trans são direitos humanos”, escreveu.
Logo depois, porém, veio a pergunta direcionada diretamente à Marvel Games:
“Mas esta merda?! Bill Rosemann, o que está acontecendo?”
A escolha de Rosemann não foi por acaso. Como uma das principais figuras da Marvel Games, ele trabalha diretamente com os projetos desenvolvidos em parceria com empresas como PlayStation e Insomniac.
Em vez de direcionar a crítica exclusivamente à Sony ou ao estúdio, Jaffe decidiu perguntar à própria Marvel se existe alguma explicação para determinadas decisões artísticas.
O problema, segundo Jaffe, não é “tiraram a sensualidade”
Depois da repercussão de seus comentários, Jaffe voltou ao assunto para explicar melhor sua posição.
Ele afirmou que não acredita que todas as mulheres representadas em videogames precisam ser sexualizadas e que também não quer transformar os jogos em pornografia. Ao mesmo tempo, defendeu que sensualidade e beleza também podem fazer parte de uma direção artística quando isso combina com a obra.
“Consigo admirar mulheres bonitas e sensuais quando a visão pede isso e também apoio mulheres de aparência normal quando a visão pede isso. Não há nada de errado com sensualidade divertida”, explicou.
Para Jaffe, portanto, reduzir a discussão a uma guerra entre “woke” e “anti-woke” seria perder completamente o ponto que ele está tentando levantar.
E ele fez questão de criticar justamente quem transforma qualquer mudança visual em uma suposta guerra cultural.
Segundo o desenvolvedor, existem pessoas que agem como se algo tivesse sido roubado delas e acreditam que todo jogo precisa obrigatoriamente atender aos seus desejos. Para Jaffe, esse tipo de reação simplesmente alimenta uma discussão muito mais rasa do que o debate artístico que ele pretende fazer.
“Meu problema é a visão”
É aqui que a crítica de Jaffe fica mais interessante.
Ele afirma ser fã da Marvel há mais de 50 anos e diz que sua preocupação está relacionada à maneira como o universo está sendo apresentado, e não à perda de algum tipo de “fanservice”.
“Meu problema é a visão, não porque ‘estão tirando meu material pornográfico! Ajudem!’. Sou leitor e adoro a Marvel há mais de 50 anos e isto simplesmente parece desenquadrado da marca”, afirmou.
Para ele, a Marvel não precisa necessariamente buscar realismo absoluto em seus personagens.
Pelo contrário.
Jaffe argumenta que existem obras em que a credibilidade física e visual é fundamental, mas Marvel funciona dentro de uma lógica de fantasia e exagero de quadrinhos.
“Existem os jogos Marvel”
Em outro trecho de sua explicação, Jaffe apresentou justamente essa diferença.
Segundo ele, existem jogos que precisam buscar uma representação mais realista e existem os jogos da Marvel. Nesse segundo caso, sua expectativa é que o visual abrace mais claramente a fantasia e o conceito de personagens vindo das histórias em quadrinhos.
A exceção, na visão dele, seria uma proposta explicitamente inspirada em algo como Old Man Logan, que possui uma abordagem muito mais envelhecida, decadente e realista do personagem.
Mas, para Jaffe, Marvel’s Wolverine não parece estar seguindo essa direção.
“Existem jogos que precisam ser credíveis e depois existem os jogos Marvel e, a não ser que a visão seja CLARAMENTE como o OLD MAN LOGAN, então isto precisa ser, na minha opinião, um poder de banda desenhada e uma fantasia aspiracional. E não o é. Pelo menos do que estou vendo. Talvez quando eu jogar...”
E esse último detalhe é importante: Jaffe ainda não está julgando a experiência completa do jogo, mas principalmente aquilo que viu da apresentação e dos materiais divulgados.
Ele próprio reconhece que pode mudar de opinião depois de jogar.
Wolverine chega em setembro
Apesar da polêmica envolvendo a direção artística, Marvel’s Wolverine continua com lançamento marcado para 15 de setembro no PlayStation 5.
O jogo é desenvolvido pela Insomniac Games e apresenta uma interpretação própria de Logan, explorando seu passado e colocando o personagem em uma aventura que passa por diferentes locais e situações do universo Marvel.
A discussão levantada por Jaffe, no fim das contas, vai além de uma simples preferência estética. Ela toca em uma questão que aparece cada vez mais nos grandes jogos licenciados: até onde uma adaptação pode reinterpretar seus personagens sem perder aquilo que os tornou reconhecíveis para os fãs?
E essa é uma conversa que provavelmente vai continuar depois que o jogo estiver nas mãos do público.
Clima SussuWorld
Jaffe entrou nessa discussão com os dois pés na porta.
Mas tem uma coisa interessante no argumento dele: ele próprio está tentando impedir que a conversa vire aquela velha briga automática de internet entre “woke” e “anti-woke”. A tese dele é bem mais simples: “eu conheço Marvel há décadas e não estou entendendo essa visão artística”.
E aí existe uma discussão legítima.
Marvel sempre foi exagerada. É músculo, uniforme impossível, poderes absurdos, poses de quadrinhos e personagens que parecem ter escapado diretamente de uma capa desenhada com tinta e imaginação. Quando você transforma tudo isso em uma representação mais realista, naturalmente alguma coisa muda.
Agora, se a Insomniac acertou ou errou essa mão, aí é outra história. E talvez Jaffe tenha deixado a melhor ressalva justamente no final: “talvez quando eu jogar...”
Porque trailer mostra aparência. Quem vai dizer se essa versão de Wolverine funciona de verdade é o jogo inteiro.
Postar um comentário