SEGA admite que ficou para trás e revela como está reconstruindo sua operação global

A SEGA está tentando voltar a pensar como uma empresa verdadeiramente global. E, desta vez, Shuji Utsumi não falou apenas sobre vender mais jogos fora do Japão, fortalecer Sonic ou transformar suas franquias em filmes e outros produtos. 

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Em uma nova entrevista à Nikkei, o presidente da SEGA abriu o jogo sobre uma mudança bem mais profunda: a própria estrutura interna da companhia precisou ser reconstruída para acompanhar a realidade mundial da indústria.

A declaração chama atenção justamente porque conversa com várias coisas que a SEGA vem dizendo nos últimos meses, mas coloca uma peça importante no quebra-cabeça. Em julho, já mostramos aqui no SussuWorld a intenção de Utsumi de transformar novamente a SEGA em uma potência global, com maior presença no PC, lançamentos multiplataforma e uma estratégia cada vez mais forte para suas propriedades intelectuais. Agora, a entrevista à Nikkei mostra como a empresa está tentando fazer isso por dentro.

A SEGA percebeu que sua estrutura estava envelhecida

Segundo Utsumi, durante muito tempo a SEGA carregou uma lógica que fazia sentido na época em que a companhia ainda era uma fabricante de consoles. O desenvolvimento começava no Japão e, depois, os jogos eram levados para outros mercados. O centro da operação estava no console e o Japão continuava sendo o ponto de partida.

O problema é que a indústria mudou completamente.

Hoje, PC, consoles, distribuição digital e diferentes mercados internacionais funcionam praticamente ao mesmo tempo. Para Utsumi, a SEGA precisava abandonar aquela lógica de "primeiro Japão, depois o resto do mundo" e passar a trabalhar de maneira global desde o nascimento de cada projeto.

E aqui aparece uma das revelações mais interessantes da entrevista.

Quando Utsumi voltou à SEGA, começou inicialmente trabalhando com a área de desenvolvimento. A ideia era fazer com que os estúdios já pensassem em lançamentos globais simultâneos, incluindo o PC. Depois, quando passou a supervisionar também a publicação dos jogos, encontrou uma estrutura dividida em três organizações diferentes.

Uma cuidava dos jogos para PC na Europa. Outra era responsável pelos consoles no Japão e na Ásia. A terceira trabalhava com consoles nos Estados Unidos e na Europa.

Em 2024, a SEGA reduziu essa estrutura para duas organizações. Em 2026, deu o passo seguinte e unificou tudo em uma única estrutura global de publicação.

Ou seja, não estamos falando simplesmente de uma mudança no departamento de marketing. A SEGA está mexendo na maneira como desenvolve, publica e administra seus jogos.

"A SEGA ficou para trás"

Talvez essa seja a parte mais interessante de toda a entrevista.

Utsumi reconhece que outras empresas já haviam construído estruturas globais semelhantes cerca de dez anos antes. A SEGA, apesar de ter uma enorme história internacional e ser uma marca conhecida nos Estados Unidos e em outros mercados, acabou ficando atrasada do ponto de vista organizacional.

É uma autocrítica bastante direta para uma companhia desse tamanho.

A SEGA possuía os personagens, as franquias, os estúdios e décadas de experiência internacional. O problema era que a organização interna não acompanhava mais a dimensão global que a empresa precisava ter. Utsumi afirma que os últimos anos foram justamente dedicados a corrigir esse atraso.

E isso ajuda a explicar várias das mudanças que estamos vendo na SEGA atualmente.

A empresa está tentando fazer com que desenvolvimento e publicação deixem de funcionar como operações separadas por território. A intenção é que os próprios estúdios e as equipes responsáveis por publicar os jogos pensem globalmente desde o início.

É uma mudança silenciosa, mas enorme.

A antiga SEGA também precisou aprender com seus próprios tombos

Utsumi também coloca essa transformação dentro de uma perspectiva histórica.

Segundo ele, o mercado de videogames sempre teve uma característica internacional muito forte. Antes mesmo dos consoles dominarem a indústria, empresas japonesas já utilizavam os arcades para conquistar mercados estrangeiros. Depois vieram os consoles, as plataformas e, mais tarde, o PC.

A própria SEGA viveu todas essas fases.

A companhia enfrentou problemas de distribuição e estoque em diferentes países, dificuldades provocadas pelo desempenho de determinadas plataformas, a ascensão de novos fabricantes e o crescimento do mercado de PC. Até que chegou o momento em que a SEGA deixou de ser uma fabricante de hardware e passou a atuar exclusivamente como uma produtora e publicadora de jogos.

Por isso, para Utsumi, ser global nunca foi exatamente uma novidade para a SEGA. A diferença agora é como a empresa precisa operar nesse mercado global.

A indústria atual exige lançamentos simultâneos, presença em múltiplas plataformas, distribuição digital, comunicação internacional e uma compreensão muito maior das diferenças entre os públicos.

A SEGA não está simplesmente descobrindo o mundo agora. Está tentando adaptar sua máquina para funcionar nele de uma maneira mais moderna.

E o PC virou parte fundamental dessa transformação

Outro detalhe importante é que a nova estratégia não coloca mais o console como ponto de partida obrigatório.

Utsumi deixa claro que a SEGA quer desenvolver e lançar seus jogos globalmente, incluindo o PC, em vez de seguir o antigo modelo no qual um título nasce pensando primeiro no mercado japonês e só depois é levado para outros territórios.

Isso ajuda a entender por que a SEGA vem ampliando tanto sua presença multiplataforma.

Não é simplesmente uma questão de "vender no maior número possível de lugares". É uma mudança na própria visão de mercado.

Para uma empresa que durante décadas esteve ligada ao hardware, é uma transformação particularmente interessante. A SEGA que criou Master System, Mega Drive, Saturn e Dreamcast precisava pensar em plataformas porque ela era uma das plataformas.

A SEGA de hoje precisa pensar em público.

E isso muda tudo.

Do Sonic para um ecossistema inteiro de franquias

Essa transformação organizacional também está diretamente ligada à estratégia de transmedia da companhia.

A SEGA criou em 2024 um departamento especializado para ampliar o valor global de suas propriedades intelectuais, levando personagens e franquias dos videogames para filmes, eventos ao vivo, teatro, produtos e outras formas de entretenimento. Sonic é o exemplo mais evidente dessa estratégia, com três filmes já lançados e um quarto previsto para março de 2027.

Mas a lógica é maior do que Sonic.

A ideia é fazer com que uma franquia não dependa exclusivamente da venda de um jogo para continuar relevante. Um personagem pode aparecer em um game, depois em um filme, em produtos licenciados, em eventos e em outras experiências.

E aí a organização global passa a ser ainda mais importante.

Não adianta ter Sonic, Persona, Like a Dragon, Angry Birds e tantas outras propriedades conhecidas mundialmente se cada região estiver trabalhando como uma ilha.

A SEGA parece finalmente ter percebido isso.

A SEGA de 2026 está tentando deixar de ser uma empresa japonesa que vende para o mundo

Talvez essa seja a melhor maneira de resumir o que Utsumi está tentando fazer.

Durante muito tempo, a SEGA foi uma empresa japonesa com enormes sucessos internacionais. Agora, a intenção parece ser construir uma companhia que nasça global desde o começo.

E existe uma diferença gigantesca entre as duas coisas.

A própria história dos videogames ajuda a entender isso. Utsumi lembra que outras formas de entretenimento japonês, como música e televisão, ficaram durante muito tempo concentradas no mercado doméstico e só posteriormente passaram a buscar o público internacional. Já os videogames foram obrigados a pensar globalmente desde seus primeiros anos, justamente porque consoles e arcades criaram mercados internacionais muito cedo.

A SEGA conhece essa história melhor do que quase qualquer outra empresa.

O curioso é que, depois de atravessar todas essas transformações, ela própria acabou precisando reaprender a pensar globalmente.

E talvez seja justamente isso que torne essa entrevista tão interessante.

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Xará...

Essa entrevista é daquelas que parecem falar de uma coisa simples, mas quando você começa a juntar as peças, percebe que existe uma mudança gigantesca acontecendo nos bastidores da SEGA.

A gente já viu Utsumi falar sobre Sonic, PC, multiplataforma, transmedia, franquias antigas e a vontade de transformar novamente a SEGA em uma potência mundial. Só que agora aparece o detalhe que faltava.

A SEGA precisou admitir que a própria casa estava organizada de maneira errada para o mundo atual.

E isso é muito mais importante do que simplesmente anunciar mais um jogo.

A empresa tinha uma estrutura dividida por regiões e plataformas enquanto seus concorrentes já estavam trabalhando com operações globais há anos. Agora, em vez de tentar apenas vender melhor seus jogos, a SEGA está tentando construir uma máquina capaz de desenvolvê-los, publicá-los e promovê-los pensando no planeta inteiro desde o primeiro dia.

É quase uma ironia histórica.

A SEGA passou décadas ensinando o mundo a jogar videogame japonês. Depois deixou de fabricar consoles, viu seu antigo modelo desaparecer e precisou encontrar um novo lugar na indústria.

Agora, em 2026, parece estar tentando fazer uma coisa ainda mais difícil: transformar sua própria estrutura para voltar a ser uma empresa global de verdade.

E olhando para tudo que Utsumi vem falando nos últimos meses, fica cada vez mais claro que esse projeto não é apenas uma nova campanha de marketing.

É uma reconstrução.

E, sinceramente, para quem acompanhou a história dessa empresa desde o Master System e o Mega Drive, é impossível não ficar de olho no que vai sair desse laboratório. 

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