Review | Ace Combat Zero: The Belkan War - O Ás que virou lenda

Existem jogos que envelhecem bem. Existem aqueles que continuam divertidos apesar do tempo. E existem alguns poucos que conseguem fazer algo ainda mais difícil: depois de quase duas décadas, eles fazem você esquecer que está jogando um jogo lançado para um console de 2006.

Ace Combat Zero: The Belkan War pertence a essa última categoria.

Lançado originalmente para o PlayStation 2 em 2006, Ace Combat Zero chegou em um momento especial para a franquia. Depois de Ace Combat 04: Shattered Skies e Ace Combat 5: The Unsung War, a Namco fechava no PS2 uma sequência que ajudou a transformar a série em uma das principais referências quando o assunto era combate aéreo nos videogames. Só que, em vez de seguir adiante na cronologia, a série decidiu olhar para trás.

E voltou para uma das guerras mais importantes de seu universo.

A Guerra de Belka.

Ambientado em 1995, anos antes dos acontecimentos de Ace Combat 5, o jogo coloca o jogador no cockpit de Cipher, um piloto mercenário contratado pela pequena nação de Ustio durante o conflito contra Belka. Ao seu lado está Larry “Pixy” Foulke, seu parceiro no esquadrão Galm.

Só que a história de Ace Combat Zero não é contada da maneira tradicional.

Ela é apresentada como uma espécie de reconstrução histórica. Anos depois da guerra, jornalistas entrevistam pessoas que participaram do conflito e tentam descobrir quem realmente foi Cipher, o misterioso piloto que se tornou uma lenda nos céus de Belka.

E é aí que a coisa começa a ficar interessante.

Porque, dependendo da maneira como você joga, a lenda de Cipher muda.


O Ás que você decide ser

Eu tinha esquecido completamente disso.

E talvez essa tenha sido uma das maiores surpresas quando voltei a jogar Ace Combat Zero em 2026.

Existe no jogo um sistema chamado Ace Style, e eu sinceramente não lembrava o quanto essa mecânica era boa.

Em praticamente todo Ace Combat, a lógica é simples: apareceu um avião inimigo, você trava a mira e manda o sujeito para o chão. É guerra. É para isso que você está ali.

Só que Ace Combat Zero coloca alguns alvos diferentes no meio da confusão.

Eles aparecem em amarelo.

São alvos neutros, civis desarmados, estruturas ou aeronaves que não representam necessariamente uma ameaça imediata e que você não precisa destruir para cumprir seu objetivo. Você pode simplesmente passar reto.

E é aí que o jogo começa a observar você.

Se você destrói praticamente tudo que aparece na sua frente, inclusive esses alvos amarelos, vai caminhando para o estilo Mercenary. Cipher passa a ser visto como um piloto implacável, alguém interessado em completar seu trabalho sem se preocupar muito com quem está no caminho.

E isso aparece até nas comunicações de rádio.

Os seus próprios companheiros passam a falar de você de maneira diferente.

O jogo começa a construir a reputação de Cipher diante do jogador.

E não para por aí.

Os esquadrões rivais que você encontra também mudam.

Você pode seguir o caminho Soldier, sendo mais objetivo e destruindo apenas aquilo que precisa ser destruído para cumprir a missão. É o meio-termo, o piloto que trata a guerra como uma operação militar e não como um exercício de brutalidade ou cavalheirismo.

Ou pode seguir pelo caminho Knight.

Nesse caso, você ignora os alvos amarelos e até pode poupar aeronaves inimigas danificadas que estão tentando fugir.

E isso muda novamente a maneira como o mundo enxerga você.

Seus companheiros demonstram respeito. Os adversários reconhecem sua reputação. E você passa a enfrentar outros ases que carregam uma visão diferente da guerra.

É, basicamente, um sistema de karma.

Só que existe uma diferença fundamental: o jogo não fica parando a ação para perguntar o que você quer fazer.

Ele simplesmente observa.

Você age.

E o mundo reage.

É uma ideia que continua impressionante quase vinte anos depois.


E eu descobri isso da pior maneira possível

Quando comecei a jogar novamente, eu simplesmente esqueci que o Ace Style existia.

Então fiz o que qualquer piloto de Ace Combat provavelmente faria.

Vi um alvo?

Derruba.

Outro?

Derruba também.

Amarelo?

Dane-se. Está voando na minha frente.

Resultado: comecei minha nova campanha como um verdadeiro carrasco dos céus.

Só depois fui lembrar do Ace Style e perceber que estava transformando Cipher em um completo desgraçado.

Foi aí que pensei: vou ter que começar de novo.

E isso é uma das coisas que mais gosto nessa mecânica.

Agora que me lembrei de como ela funciona, ela vai influenciar diretamente a maneira como vou jogar.

Se eu não soubesse que o sistema existe, provavelmente continuaria destruindo tudo sem pensar duas vezes. Mas agora sei que cada atitude pode afetar a reputação de Cipher, as interações pelo rádio, os adversários que vou encontrar e até o desenvolvimento da campanha.

Então comecei a olhar para aqueles alvos amarelos de uma maneira completamente diferente.

“Eu realmente preciso destruir isso?”

É uma pergunta simples.

Mas Ace Combat Zero consegue transformar essa pergunta em parte da experiência.


Vinte anos depois, ainda é gostoso pilotar

E aqui chegamos à pergunta que realmente importa em um Retro Review.

Como é jogar Ace Combat Zero em 2026?

A resposta, para mim, foi muito melhor do que eu esperava.

É muito bom.

Os controles envelheceram muito bem. O avião responde aos comandos de maneira precisa, as manobras continuam satisfatórias e aquela sensação de velocidade que sempre foi uma das grandes virtudes de Ace Combat continua aqui.

Você sente que está pilotando.

E isso parece uma coisa simples, mas não é.

Um jogo de combate aéreo pode ter gráficos incríveis, centenas de aeronaves e efeitos espetaculares. Se o controle não transmitir aquela sensação de velocidade e domínio da aeronave, tudo desmorona.

Ace Combat Zero ainda entrega isso.

Quando você entra em uma perseguição, começa a receber alertas de mísseis, vira o caça para escapar de um ataque e imediatamente tenta colocar o inimigo novamente na sua mira, existe uma fluidez que continua funcionando perfeitamente.

O jogo tem quase vinte anos.

Mas o gameplay não parece velho.

E talvez esse seja o maior elogio que eu possa fazer.


O meu problema com os 36 aviões

Ace Combat Zero possui dezenas de aeronaves disponíveis, e existe uma boa variedade para experimentar durante a campanha.

Mas vou ser completamente honesto:

eu tenho um problema sério com aviões.

E provavelmente muita gente da minha geração vai entender.

Eu fui moldado por Top Gun.

Só que antes de Top Gun, eu já tinha sido fisgado pelo F-14 através de After Burner.

Então, quando comecei a gostar de aviões nos videogames, o estrago já estava feito.

Depois vieram outros jogos, outros caças, helicópteros e tudo mais. Mas o F-14 Tomcat ficou.

E continua sendo meu avião favorito.

Pode me dar dezenas de aeronaves diferentes.

Pode colocar caça moderno, protótipo, avião experimental, o que for.

Se tiver um F-14 Tomcat disponível, existe uma chance enorme de eu terminar a campanha com ele.

É simplesmente assim.

Eu olho para aquele avião e penso:

“É esse.”


Uma campanha que ainda prende

Outra surpresa foi perceber como a campanha continua funcionando bem.

Ace Combat Zero não precisa de uma quantidade absurda de missões para contar sua história. O jogo mantém uma estrutura relativamente direta, colocando o jogador cada vez mais fundo na Guerra de Belka e na transformação de Cipher em uma figura lendária.

Mas é a maneira como a história é apresentada que continua chamando atenção.

As cutscenes utilizam entrevistas em live-action com personagens que participaram dos acontecimentos.

Eles estão falando sobre aquela guerra anos depois.

Estão relembrando os acontecimentos.

Estão falando sobre os pilotos que enfrentaram.

Estão falando sobre Cipher.

E isso cria uma sensação muito diferente de simplesmente assistir a uma cutscene tradicional.

Você sente que está acompanhando uma história que já aconteceu.

Uma guerra que terminou.

Uma geração que sobreviveu.

E pessoas tentando explicar quem foi aquele piloto que passou pelos céus de Belka deixando uma marca tão grande.


Cipher e Pixy

Mas se existe uma relação que dá peso emocional à campanha, é a de Cipher e Pixy.

Pixy não é apenas um personagem que voa ao seu lado.

Ele funciona como uma espécie de contraponto para Cipher.

Os dois começam como companheiros de combate, dividindo missões e enfrentando juntos uma guerra cada vez mais brutal.

Só que a Guerra de Belka não deixa ninguém intacto.

E a relação entre os dois vai ganhando outro significado conforme a história avança.

É justamente por isso que Ace Combat Zero consegue transformar aquilo que poderia ser simplesmente mais uma campanha de combate aéreo em algo muito mais pessoal.

Você não está apenas tentando vencer uma guerra.

Está construindo uma história sobre quem Cipher se tornou dentro dela.

E o jogo faz isso sem precisar transformar o protagonista em um personagem cheio de diálogos.

É o jogador que constrói Cipher.


Quando o jogo transforma ases em chefes

Outra coisa que continua funcionando muito bem são os confrontos contra os grandes esquadrões de ases.

Esses encontros não parecem simplesmente inimigos com uma barra de energia maior.

Eles têm identidade.

Você sabe que está enfrentando alguém diferente.

E isso muda o ritmo das missões.

De repente, você não está mais apenas limpando o céu de aeronaves inimigas. Está perseguindo um piloto que sabe voar, que consegue escapar, contra-atacar e obrigar você a pensar um pouco mais sobre o que está fazendo.

É aí que Ace Combat Zero mostra por que o sistema Ace Style é tão interessante.

Seu comportamento durante a campanha influencia não apenas uma estatística escondida.

Ele ajuda a determinar que tipo de pilotos você encontrará pelo caminho.

O jogo cria uma espécie de espelho.

Você constrói sua reputação e depois enfrenta pilotos que representam diferentes filosofias de combate.

É uma ideia simples, mas extremamente eficiente.


E graficamente?

Aqui existe outra surpresa.

Estamos falando de um jogo de PlayStation 2 lançado em 2006.

Naturalmente, existem elementos que denunciam sua idade. Texturas, modelos e alguns efeitos não vão competir com um jogo moderno. E nem deveriam.

Mas, sinceramente?

Eu achei o jogo bonito.

Muito bonito, inclusive.

Principalmente quando você está no ar.

Os aviões continuam tendo presença, os cenários conseguem criar uma boa sensação de escala e os combates têm uma apresentação que ainda segura muito bem.

E quando tudo está acontecendo ao mesmo tempo, com aeronaves cruzando o céu, mísseis passando, explosões acontecendo e o cenário correndo abaixo de você, fica fácil esquecer a idade do jogo.

Não é um jogo que precisa ser defendido com a frase:

“É bonito para um jogo de PS2.”

Não.

Ele simplesmente continua bonito dentro da proposta que tem.

E isso faz toda diferença.


A trilha sonora que parece saber exatamente o que está fazendo

Falar de Ace Combat Zero sem falar da trilha sonora seria praticamente crime de guerra.

Keiki Kobayashi conseguiu criar uma identidade musical muito forte para o jogo, misturando elementos orquestrais com influências do flamenco, violões e uma atmosfera que combina perfeitamente com os grandes confrontos aéreos.

Mas existe uma música que virou praticamente sinônimo do jogo.

“Zero”.

E quando aquela música entra em cena, o jogo parece elevar tudo alguns níveis.

Não é apenas uma música boa tocando durante uma batalha.

Ela transforma o confronto em um acontecimento.

E isso fica ainda mais forte quando você entende o contexto daquele combate.


Quando a guerra deixa de ser uma missão

A batalha final é o momento em que Ace Combat Zero junta praticamente tudo aquilo que construiu durante a campanha.

A relação entre Cipher e Pixy.

A guerra.

As diferentes visões sobre o conflito.

A reputação construída ao longo das missões.

A música.

E, finalmente, um confronto que parece muito maior do que simplesmente derrotar o último inimigo.

A trilha sonora transforma aquele momento em uma verdadeira dança aérea, enquanto o jogo coloca o jogador diante de um adversário que exige mais do que simplesmente disparar mísseis e esperar o resultado.

É um daqueles momentos em que gameplay e narrativa estão falando a mesma língua.

E quando um jogo consegue fazer isso, quase vinte anos depois, fica difícil não respeitar.


O que envelheceu?

Nem tudo é perfeito.

Estamos falando de um jogo de 2006 e existem limitações que ficam mais evidentes quando voltamos a ele hoje.

A quantidade de conteúdo e algumas estruturas de campanha podem parecer mais simples quando comparadas aos jogos modernos. O reaproveitamento de elementos de Ace Combat 5 também fica perceptível para quem conhece os dois títulos.

E existe aquela curva inicial de quem precisa reaprender a pilotar e entender exatamente como o jogo funciona.

Mas nada disso conseguiu me tirar a sensação de que estou diante de um jogo que entende perfeitamente o que quer ser.

Ele não precisa de um mundo aberto gigantesco.

Não precisa de 500 aeronaves.

Não precisa transformar cada missão em uma experiência de 40 minutos.

Ele quer colocar você dentro de um caça, mandar você para o céu e fazer você se sentir um ás.

E consegue.


Ace Combat Zero em 2026

Voltar para Ace Combat Zero: The Belkan War depois de quase vinte anos foi uma experiência muito melhor do que eu imaginava.

Eu lembrava de algumas coisas.

Esqueci completamente outras.

E algumas delas, como o Ace Style, me fizeram parar e pensar:

“Por que isso não existe mais?”

Porque essa mecânica continua sendo uma das ideias mais interessantes que a franquia já teve.

O jogo não pergunta que tipo de piloto você quer ser.

Ele observa o que você faz.

Você pode ser um mercenário implacável.

Pode ser um soldado pragmático.

Pode ser um cavaleiro.

E, no processo, o mundo começa a construir uma reputação para você.

Tudo isso dentro de um jogo de combate aéreo.

Essa profundidade é justamente o que mais me surpreendeu ao revisitar Ace Combat Zero.

Porque eu esperava encontrar um clássico de PS2.

Encontrei um jogo que ainda sabe jogar.

O gameplay continua excelente.

Os controles continuam respondendo muito bem.

A sensação de velocidade continua deliciosa.

A campanha continua prendendo.

A trilha sonora continua absurda.

E, mesmo com quase duas décadas nas costas, Ace Combat Zero ainda consegue entregar aquela sensação maravilhosa de estar no cockpit de um caça e olhar para o céu pensando:

“Vamos ver quem é o melhor piloto daqui.”

Por isso, eu só tenho uma coisa a dizer à Bandai Namco.

Obrigado por trazer esse jogo de volta.

Mas agora tragam ele para todo mundo.

O fato de Ace Combat Zero ter voltado como um bônus associado à pré-venda de Ace Combat 8 significa que muita gente simplesmente não terá acesso oficial a esse capítulo da franquia. E é uma pena.

Porque todo mundo merece jogar Ace Combat Zero.

Todo mundo merece conhecer Cipher.

Todo mundo merece voar ao lado de Pixy.

Todo mundo merece descobrir o Ace Style.

Todo mundo merece ouvir “Zero” enquanto dois ases se enfrentam no céu.

E todo mundo merece descobrir por conta própria por que a Guerra de Belka continua sendo uma das histórias mais marcantes de Ace Combat.

Se você nunca jogou, procure uma maneira de conhecer esse clássico.

Se jogou há vinte anos, talvez seja hora de voltar.

Só tome cuidado com os alvos amarelos.

Eu não tomei.

E agora vou ter que começar tudo de novo. 😂

Então, aviadores, peguem seus capacetes, entrem em seus aviões e vamos partir para a guerra.

Porque essa é uma guerra que vale a pena lutar.

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