Dan Houser admite que errou com Max Payne 3, mas será que o jogo foi mesmo um fracasso?

Um dos roteiristas responsáveis por Max Payne 3 reconheceu que o jogo não alcançou o sucesso esperado e assumiu parte da culpa. Mas, para quem considera a aventura de Max no Brasil uma das melhores experiências da história dos videogames, essa avaliação está longe de encerrar a discussão.

Existem declarações da indústria dos games que fazem a gente parar por alguns segundos e pensar: será que jogamos o mesmo jogo? Foi justamente essa a sensação ao ler as palavras de Dan Houser, um dos principais nomes da Rockstar e roteirista de Max Payne 3. Em uma entrevista ao IGN, o desenvolvedor admitiu que acredita ter errado na maneira como conduziu sua parte do projeto, reconhecendo que o jogo não foi tão bem-sucedido quanto deveria. E olha, eu respeito a sinceridade de alguém que consegue olhar para trás e admitir que poderia ter feito algo diferente. Mas, quando o assunto é Max Payne 3, confesso que tenho muita dificuldade para concordar com essa visão.

Dan Houser acreditava ter criado um novo noir digital

Lançado em 2012, Max Payne 3 representou uma mudança significativa em relação aos dois primeiros jogos, desenvolvidos pela Remedy Entertainment. A Rockstar assumiu a responsabilidade de continuar a história do policial marcado pela tragédia e levou o personagem para uma realidade bem diferente daquela Nova York sombria que havia definido os capítulos anteriores.

Dan Houser contou que gostou bastante da experiência de trabalhar em um jogo linear, com uma estrutura mais controlada do que a encontrada nos mundos abertos da Rockstar. Ele também elogiou as escolhas de design, a apresentação visual e a maneira como o jogo utilizava palavras na tela para reforçar sua identidade cinematográfica. Na visão dele, a equipe estava construindo uma experiência de noir digital bastante interessante.

O problema, segundo Houser, foi a recepção. Ele afirmou que acreditava ter feito um bom trabalho ao criar outra aventura de Max Payne, mas reconheceu que parte do público não recebeu o jogo da maneira esperada. O roteirista também mencionou o trabalho de Sam Lake, criador do personagem, e reconheceu que muitos jogadores sentiram falta da escrita associada aos títulos anteriores.

Ao olhar para o resultado, Houser assumiu a responsabilidade por parte das decisões criativas e declarou que sua contribuição não foi um sucesso. É uma admissão forte, principalmente quando vem de alguém que ajudou a construir algumas das franquias mais importantes da história dos videogames.

Só que existe uma diferença entre reconhecer que uma continuação dividiu opiniões e concluir que ela falhou como experiência. E é justamente nesse ponto que minha opinião entra em campo.

Max Payne 3 é um dos melhores jogos que já joguei

Vou falar a verdade: eu fico muito irritado quando vejo Max Payne 3 sendo tratado como uma espécie de decepção histórica. Para mim, esse jogo está entre os melhores que já joguei na vida. Não estou falando apenas de nostalgia ou daquela vontade de defender um título porque ele marcou uma época. É um jogo que terminei inúmeras vezes e que, mesmo depois de tantas partidas, continua despertando aquela vontade de voltar e começar tudo de novo.

A Rockstar pode ter mudado bastante a identidade da série, mas entregou um jogo de ação extraordinário. Os gráficos continuam impressionantes, a direção cinematográfica é espetacular e o sistema de tiroteio tem uma precisão que transforma cada confronto em um espetáculo. O Bullet Time, então, é uma delícia de usar. A sensação de desacelerar o tempo, mergulhar no meio dos tiros e derrubar os inimigos com aquela combinação de câmera, animação e impacto continua funcionando muito bem.

E não é só uma questão de apertar o gatilho. Existe um cuidado absurdo na maneira como os personagens se movimentam, reagem aos disparos e interagem com os cenários. As armas têm peso, os confrontos são intensos e a apresentação das cenas ajuda a manter o ritmo da campanha. É aquele tipo de jogo em que você termina uma sequência de combate e já quer encontrar a próxima desculpa para entrar em outro tiroteio.

A história também merece muito mais crédito do que às vezes recebe. Max está destruído emocionalmente, carregando suas perdas e tentando sobreviver em um ambiente que parece empurrá-lo cada vez mais para o fundo do poço. Sua passagem pelo Brasil dá à aventura uma identidade própria, colocando o personagem em meio a conflitos, violência e corrupção que contrastam com o universo dos jogos anteriores. São Paulo e os cenários brasileiros ajudam a construir uma atmosfera diferente, sem transformar a viagem em um simples passeio turístico.

A mudança de cenário não apagou Max Payne. Ela colocou o personagem em outra realidade e explorou sua deterioração de uma maneira própria. O tom é diferente? Sem dúvida. Mas diferente não significa automaticamente pior.

O problema foi tentar repetir Max Payne 2?

Aqui está a parte em que consigo entender algumas das críticas. Max Payne 1 e Max Payne 2 construíram uma identidade muito particular, com aquela Nova York sufocante, o clima noir, os pesadelos, os monólogos internos e uma narrativa que parecia mergulhar diretamente na cabeça de um homem consumido pela culpa. Sam Lake teve um papel fundamental nessa personalidade, e é natural que os fãs sentissem falta de elementos tão marcantes.

Max Payne 3 seguiu outra direção. A Rockstar apostou mais na ação cinematográfica, nos tiroteios elaborados e em uma apresentação que lembra um filme policial violento. A atmosfera também é diferente, mais quente, colorida e caótica em muitos momentos, embora a história continue carregada de sofrimento e desesperança.

Eu entendo quem prefere a abordagem da Remedy. Max Payne 2, inclusive, continua sendo um dos grandes exemplos de como narrativa, atmosfera e jogabilidade podem trabalhar juntas. Mas não acho justo transformar essa preferência em uma condenação do terceiro jogo.

Uma continuação não precisa reproduzir cada característica dos capítulos anteriores para justificar sua existência. Max Payne 3 tem personalidade, sabe exatamente o tipo de experiência que quer oferecer e executa sua proposta com um nível de refinamento impressionante. Para mim, a Rockstar não destruiu a identidade da franquia. Ela apresentou uma interpretação diferente do mesmo personagem.

Vendeu milhões, mas isso significa que fracassou?

Outro ponto que merece cuidado é a palavra "fracasso". A percepção de que Max Payne 3 teve um desempenho comercial abaixo do esperado não significa que o jogo tenha sido um desastre de vendas ou que não tenha conquistado jogadores. O título vendeu milhões de cópias, com números frequentemente citados na casa dos quatro milhões nos primeiros períodos de divulgação, embora seja importante considerar o período e a métrica usados em cada balanço.

Também precisamos lembrar que vendas e rentabilidade não são a mesma coisa. Um jogo pode vender milhões e ainda ficar abaixo das metas estabelecidas por uma empresa, especialmente quando envolve um desenvolvimento caro, uma campanha de marketing robusta e expectativas comerciais elevadas. Sem conhecer todos os custos, as projeções internas e os resultados financeiros completos, não dá para concluir que as vendas, isoladamente, provam sucesso ou fracasso.

O que me incomoda é quando a avaliação empresarial passa a ser usada como se fosse uma sentença definitiva sobre a qualidade do jogo. Se a Rockstar esperava vender muito mais, tudo bem: do ponto de vista comercial, pode ter existido uma decepção. Mas isso não apaga a qualidade da produção, o refinamento dos tiroteios, a direção das cenas ou o impacto que a aventura teve sobre quem a jogou.

Um jogo pode ficar abaixo das expectativas de uma empresa e, ainda assim, ser uma obra extraordinária. Essas duas coisas não se anulam.

Max Payne 3 merece ser lembrado pelo que fez de melhor

O mais interessante nessa história é que Dan Houser não está simplesmente dizendo que o jogo era ruim. Pelo contrário: ele elogiou várias decisões de design e reconheceu que a produção era muito bem-feita. Sua frustração parece estar ligada à recepção e ao fato de que a equipe não conseguiu entregar aquilo que parte do público esperava de uma nova aventura de Max Payne.

E essa distinção importa. A declaração revela a visão pessoal de um dos responsáveis pelo projeto, não um veredito universal sobre o jogo. Até porque o próprio Houser reconhece que algumas pessoas gostaram da experiência.

Enquanto isso, Max Payne 3 continua sendo uma referência para quem procura um jogo de tiro em terceira pessoa com tiroteios intensos, animações elaboradas e uma campanha extremamente cinematográfica. E, para mim, continua sendo uma daquelas experiências que envelhecem muito bem justamente porque a jogabilidade ainda é prazerosa.

A expectativa agora também se volta para os remakes dos dois primeiros Max Payne, que estão em desenvolvimento pela Remedy com a participação da Rockstar. Se os novos projetos conseguirem preservar a atmosfera, a narrativa e a identidade dos originais, ao mesmo tempo que aproveitam o refinamento técnico que marcou o terceiro jogo, teremos motivos de sobra para comemorar.

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Dan Houser pode considerar que errou em sua participação em Max Payne 3, e respeito a honestidade dele ao admitir isso. Mas, falando como jogador, eu não consigo olhar para esse jogo e enxergar um fracasso. Para mim, é um dos melhores jogos de ação já feitos, uma experiência que terminei tantas vezes que já perdi a conta e que ainda me dá vontade de jogar novamente.

Os gráficos, a história, a ambientação brasileira e, principalmente, aquele Bullet Time maravilhoso fazem de Max Payne 3 um jogo especial. Não precisa ser melhor do que Max Payne 2 em tudo, nem reproduzir exatamente a fórmula da Remedy, para merecer seu lugar na história.

Se a Rockstar esperava vender mais, essa é uma discussão comercial legítima. Agora, dizer que o jogo não correspondeu às expectativas não deveria ser confundido com dizer que ele não tem valor. Porque, para muita gente, ele tem valor de sobra.

E eu continuo aqui, pronto para começar mais uma campanha. Porque tem jogo que a gente termina e deixa para trás. Max Payne 3 é aquele que termina, os créditos sobem e, depois de um tempo, a mão já começa a coçar para jogar tudo de novo.

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