Refazer Final Fantasy VII era, desde o início, uma missão quase impossível. Estamos falando de um dos jogos mais amados da história, um símbolo da era de ouro do PlayStation e uma lembrança viva para milhões de jogadores que cresceram nos anos 90. Mexer nisso é como tocar numa relíquia sagrada. Mas a Square Enix conseguiu não só revisitar esse clássico - ela reinventou tudo com ousadia, emoção e respeito.

O nome por trás dessa nova era é Naoki Hamaguchi, o diretor da trilogia Final Fantasy VII Remake. Ele começou sua trajetória como programador em Final Fantasy XII e subiu degrau por degrau até chegar ao comando de uma das produções mais ambiciosas da história da empresa. Hoje, ele é visto como um dos principais criadores dentro da Square Enix, equilibrando a herança do passado com uma visão moderna sobre como contar histórias em jogos.
Em entrevista ao site Eurogamer, Hamaguchi abriu o coração sobre os bastidores da trilogia, a falta quase total de documentação do original, o peso emocional do projeto e o que podemos esperar do capítulo final - que, segundo ele, já está em desenvolvimento ativo e deve surpreender até os fãs mais veteranos.
Hamaguchi conta que, nos anos 90, o desenvolvimento de Final Fantasy VII foi praticamente um faroeste digital. Nada era padronizado, e quase nenhuma documentação foi preservada. “Quase não há registros. O que temos são alguns esboços antigos, ideias soltas e o que foi publicado nos guias Ultimania. Não existe um design document completo do jogo”, explica. Diante disso, a equipe do remake precisou recorrer à memória e à visão dos próprios criadores originais - Yoshinori Kitase, Tetsuya Nomura, Motomu Toriyama e Kazushige Nojima, todos ainda envolvidos no projeto.
“Eu queria evitar a todo custo criar uma versão de fã de Final Fantasy VII. Não queria reescrever o jogo com as minhas próprias ideias. Sempre que tenho dúvidas sobre o que é essencial, recorro diretamente a eles. Essa comunicação constante é o que mantém o espírito do original vivo dentro do remake”, disse o diretor.
O equilíbrio entre nostalgia e inovação foi um dos maiores desafios da equipe. Para Hamaguchi, o segredo da trilogia é justamente o fato de que cada parte tem uma alma própria. Remake foi uma experiência mais cinematográfica e linear, focada no impacto emocional da redescoberta de Midgar. Já Rebirth abriu o mundo e deu liberdade de exploração, misturando drama, humor e vastidão em uma jornada que se sente viva.
“Desde o começo, sabíamos que não queríamos repetir fórmulas. Se fossem três jogos idênticos, apenas continuando a história, o público se cansaria. Cada parte precisa trazer algo novo - um novo ritmo, uma nova sensação. Essa é a filosofia que guia tudo”, explica.
E o que vem pela frente? O terceiro capítulo da trilogia promete seguir esse mesmo princípio de transformação. Hamaguchi diz que o novo jogo vai surpreender até mesmo os fãs que acham que já sabem o que esperar. “Estamos planejando algo que leve a experiência ainda mais longe. Se Rebirth expandiu o mundo, o próximo vai redefinir o que significa vivê-lo”, provoca.
No lado mais técnico, o diretor revelou que prefere evitar decisões por comitê. Mesmo com uma equipe gigante e muitas vozes criativas, ele insiste em manter uma direção clara e coesa. “Se muita gente opina, a visão criativa se dilui. Eu prefiro que a direção venha de um ponto só. O Sr. Nojima define o que quer expressar na história, e nós fazemos acontecer”, afirma.
Ele também comentou o processo de revisão e regravação de cenas, que acontece com frequência. “Sempre há ajustes, mas tudo é feito com muito cuidado para manter o tom emocional certo. Às vezes reescrevemos uma fala inteira só pra garantir que o sentimento seja o mesmo do original.”
Hamaguchi também se diverte ao falar dos fãs que vasculham os arquivos dos jogos em busca de segredos. “É engraçado ver o pessoal descobrindo diálogos cortados e especulando teorias. A gente só precisa ser mais cuidadoso pra não deixar tanto conteúdo sobrando no código”, brinca.
O sucesso da trilogia transformou Hamaguchi em uma das figuras mais respeitadas da Square Enix. Muitos já o apontam como um possível futuro diretor de Final Fantasy XVII, mas ele prefere manter o mistério. “(risos) Não posso responder isso. Se eu falar qualquer coisa, as pessoas vão tirar conclusões erradas. Mas posso dizer que tenho muitas ideias para o que quero fazer a seguir.”
Ele também comentou a atual transformação da indústria, destacando o contraste entre os jogos como serviço e a volta dos títulos premium e focados em narrativa. “O mercado está mudando. Os jogos como serviço cresceram muito, mas há uma força contrária - uma vontade das pessoas de viver experiências fechadas, com começo, meio e fim. É isso que quero explorar.”
Sobre o andamento da parte final, Hamaguchi confirmou que o desenvolvimento está a todo vapor e que a equipe está motivada para encerrar a trilogia de forma grandiosa. “Queremos que esse terceiro jogo seja o fechamento perfeito - não só para essa história, mas para a jornada que os jogadores viveram junto com a gente desde 2020. A ideia é que o fim da trilogia simbolize o renascimento definitivo de Final Fantasy VII.”
O que começou como um remake virou algo muito maior: uma nova mitologia dentro da própria Square Enix. E o mais curioso é que tudo nasceu da falta de registros, da necessidade de recriar um mundo inteiro a partir de lembranças, fragmentos e paixão. Hamaguchi e seu time conseguiram o impossível - dar nova vida a uma lenda sem apagar o brilho do original.
Agora, o que resta é esperar pelo grande final dessa trilogia que redefiniu o que significa refazer um clássico.
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