Em meio a tantas discussões sobre multiplataforma, ex-exclusivos chegando a outros consoles e estratégias cada vez mais flexíveis, Shawn Layden, ex-executivo da PlayStation, jogou um pouco de água fria no discurso do “fim das exclusividades”. Para ele, exclusivos continuam tendo um papel vital na identidade das plataformas - e não estão com os dias contados.

Layden deixa claro que não acredita que todo jogo precise ser exclusivo, nem que todos devam ser, mas reforça que, quando falamos de empresas como Sony e Nintendo, o valor de marca criado por grandes exclusivos é simplesmente enorme. Na visão dele, certos personagens e franquias não são apenas jogos. Eles são a própria voz do console.
Layden foi direto: a venda de consoles por geração gira sempre em torno de 250 milhões de unidades, com uma única exceção real, a era do Wii. Segundo ele, o número impressiona, mas também revela um limite difícil de quebrar. Layden explica que, apesar de o discurso atual falar em centenas de milhões de jogadores e uma indústria bilionária, esse bolo inclui jogadores de Wordle, Candy Crush e outros títulos casuais. Quando o assunto é console dedicado, a conta encolhe bastante.
“O número de consoles vendidos por geração basicamente estagna. A única vez que isso subiu de forma relevante foi com o Wii, quando conseguimos atrair um público completamente fora do padrão”, comentou. Para Layden, aquilo foi uma anomalia. E desde então, a indústria voltou ao mesmo platô.
Layden usa um exemplo direto e até dramático: se Mario aparecesse no PlayStation, seria praticamente “o apocalipse”. E o mesmo vale para Nathan Drake e Uncharted fora do ecossistema PlayStation. Esses jogos, segundo ele, fazem as plataformas “cantarem”.
A lição esquecida de Betamax e VHS
É aqui que entra a analogia histórica. Layden acredita que a indústria de games precisa estudar com mais carinho a guerra dos formatos de vídeo entre Betamax e VHS, lá no fim dos anos 70 e início dos 80. Mesmo sendo tecnicamente superior em vários aspectos, o Betamax perdeu por um motivo simples: era fechado demais.
“O VHS venceu porque foi amplamente licenciado. Várias fabricantes puderam produzir aparelhos compatíveis, e o mercado naturalmente se unificou”, explicou.
Ele lembra que ninguém quer ficar preso a um formato que o vizinho não usa. Se todo mundo tem VHS, é isso que sobrevive. Curiosamente, o próprio sucesso posterior do CD, DVD e Blu-ray seguiu exatamente esse modelo: um padrão único, licenciado para múltiplos fabricantes, com a competição acontecendo no hardware, não no formato.
Um “formato universal” para games?
Na visão de Layden, o videogame poderia seguir o mesmo caminho. A ideia seria criar algo como um consórcio de formato de games, talvez baseado em PC ou em um sistema comum, permitindo que diferentes empresas fabricassem consoles compatíveis entre si.
“É assim que você chega à ubiquidade de um eletrodoméstico comum”, disse. “Hoje, estamos presos em um campo de contenção.”
Na prática, isso significaria que todos os jogos rodariam em qualquer console, independentemente da marca. E mais: empresas fora do trio Sony, Microsoft e Nintendo poderiam entrar na disputa de hardware.
A mensagem é clara: exclusivos não são só produtos, são identidade, tradição e conexão emocional com o público. Algo que vai além de números de vendas ou alcance de mercado. Mesmo reconhecendo a importância de jogos multiplataforma e de estratégias mais abertas, Layden acredita que sempre haverá espaço para títulos pensados para representar um console específico.
No fim das contas, a fala dele soa quase como um lembrete para a indústria: você pode até abrir portas, mas algumas chaves continuam sendo únicas. E, segundo Shawn Layden, elas ainda vão continuar girando por bastante tempo.
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