A Devolver Digital está preparando uma mudança importante em sua estrutura. A conhecida publisher de jogos independentes anunciou planos para deixar o mercado AIM da Bolsa de Valores de Londres e voltar a operar como uma companhia privada, argumentando que a natureza imprevisível do desenvolvimento de videogames nem sempre combina com a pressão do mercado financeiro por crescimento constante e resultados previsíveis.

A decisão surge depois de um período complicado para a empresa, marcado por alguns lançamentos abaixo das expectativas e por um mercado independente cada vez mais competitivo.
Mas existe um ponto particularmente interessante na justificativa apresentada pela própria Devolver: produzir videogames não funciona necessariamente no ritmo que investidores gostariam que funcionasse.
O problema de tentar transformar lançamentos em uma linha sempre crescente
Em comunicado aos investidores, a Devolver propôs cancelar a negociação de suas ações no AIM, mercado da London Stock Exchange voltado principalmente para empresas menores e em crescimento.
A companhia explica que sua receita, como publisher e desenvolvedora independente, está diretamente ligada ao momento e ao tamanho de cada lançamento.
E jogos atrasam.
Projetos mudam.
Um título pode vender muito acima das expectativas enquanto outro pode simplesmente desaparecer no meio de uma quantidade gigantesca de lançamentos.
Isso significa que os resultados financeiros naturalmente podem variar bastante de um semestre para outro.
Segundo a Devolver, essa irregularidade não se encaixou muito bem em um mercado que trabalha com relatórios semestrais e coloca grande importância sobre crescimento previsível e sequencial.
Na prática, a empresa afirma que algumas vezes acabou pressionada a cumprir expectativas financeiras de curto prazo que não necessariamente representavam o verdadeiro potencial de seu catálogo e dos jogos ainda em desenvolvimento.
É uma explicação bastante reveladora sobre o choque entre duas coisas que nem sempre funcionam no mesmo relógio: criação de videogames e mercado financeiro.
Devolver passou por anos turbulentos
A Devolver ficou conhecida justamente por construir uma identidade bastante diferente das grandes publishers tradicionais, apostando em projetos menores, criativos e frequentemente estranhos no melhor sentido possível.
Seu catálogo passou por jogos como Hotline Miami, Enter the Gungeon, Inscryption, Cult of the Lamb e diversos outros projetos independentes que dificilmente seriam encontrados dentro do portfólio de uma publisher tradicional.
Mas esse modelo também possui riscos.
Nem todo lançamento vira um fenômeno e, quando boa parte do desempenho financeiro depende de poucos títulos chegando ao mercado em determinados períodos, um atraso ou desempenho abaixo das expectativas pode provocar uma diferença enorme nos resultados daquele semestre.
Depois de abrir seu capital em 2021, a Devolver passou justamente a conviver com uma realidade diferente daquela de seus primeiros anos: além de encontrar jogos interessantes para publicar, precisava responder também às expectativas de acionistas e do mercado.
Agora a companhia parece acreditar que operar novamente longe dessa pressão poderá facilitar decisões pensando no longo prazo.
Voltar a ser privada pode dar mais liberdade
Caso a proposta seja aprovada e concluída, a Devolver deixará de ter suas ações negociadas publicamente no AIM.
Isso não significa que os problemas desaparecem magicamente.
A companhia continuará precisando fazer jogos rentáveis, administrar seus custos, escolher cuidadosamente quais projetos financiar e competir por atenção em um mercado que recebe uma quantidade absurda de novos títulos todos os meses.
A diferença está principalmente no horizonte utilizado para tomar essas decisões.
Sem a necessidade de justificar cada semestre diante do mercado público, a administração poderá ter maior flexibilidade para absorver atrasos, investir em projetos cujo retorno demora mais para aparecer e aceitar que um determinado período financeiro pode ser mais fraco porque os lançamentos importantes simplesmente ficaram para depois.
Para uma publisher cuja identidade depende justamente de apostar em ideias pouco convencionais, isso pode fazer bastante diferença.
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Essa notícia tem uma frase escondida dentro dela que diz muita coisa sobre o momento atual da indústria:
videogame não cresce em linha reta.
Parece uma obviedade para qualquer pessoa que acompanhe desenvolvimento de jogos há algum tempo, mas é justamente aí que o mercado financeiro e a produção criativa começam a bater cabeça.
Você pode ter Cult of the Lamb num ano e nenhum fenômeno equivalente no seguinte. Pode financiar dez jogos e descobrir que aquele projetinho estranho que ninguém esperava vendeu milhões enquanto o título no qual você colocou mais dinheiro tropeçou na largada.
E pior: você pode simplesmente precisar de mais seis meses para terminar um bom jogo.
Só que a planilha não gosta de “precisamos de mais seis meses”. A planilha quer saber por que aquela receita prevista para setembro agora aparecerá em março.
Esse é justamente o ponto mais interessante da justificativa da Devolver. A empresa basicamente admite que a cobrança por crescimento sequencial previsível não combina muito bem com um negócio em que cada produto leva anos para ser feito e possui resultado comercial extremamente difícil de prever.
Voltar a ser privada não transforma automaticamente a Devolver naquela publisher maluca dos primeiros tempos, nem garante que todos os problemas estarão resolvidos.
Mas talvez permita que ela volte a olhar um pouco menos para o próximo relatório semestral e um pouco mais para aquela coisa esquisita que três desenvolvedores estão fazendo numa salinha e que pode acabar virando o próximo grande indie.
Para uma empresa como a Devolver, isso parece fazer bastante sentido.
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