Ex-desenvolvedor explica por que The Elder Scrolls nunca teve um spin-off no estilo de Fallout: New Vegas

The Elder Scrolls nunca recebeu um spin-off para outro estúdio desenvolver nos moldes de Fallout: New Vegas, e um ex-desenvolvedor da Bethesda acredita que a postura de Todd Howard em relação à franquia pode ajudar a explicar o motivo.

Em entrevista ao FRVR, Kurt Kuhlmann, que trabalhou durante cerca de 20 anos na Bethesda, falou sobre a diferença entre as duas franquias. Kuhlmann foi designer sênior em Fallout 3 e Fallout 4 e também atuou como co-líder de design em The Elder Scrolls V: Skyrim.

Questionado sobre por que Bethesda nunca entregou The Elder Scrolls a outro estúdio para criar um projeto derivado, como aconteceu com Fallout: New Vegas, Kuhlmann apontou justamente para a relação de Todd Howard com a propriedade intelectual.

Segundo ele, Howard seria “muito protetor” de The Elder Scrolls e poderia ter evitado uma situação semelhante à que surgiu depois do lançamento de New Vegas.

O caso Fallout: New Vegas

Fallout: New Vegas foi desenvolvido pela Obsidian Entertainment, e não pela Bethesda Game Studios. O jogo chegou em 2010, entre Fallout 3 e Fallout 4, utilizando a tecnologia e parte da estrutura estabelecida pela Bethesda.

O título acabou conquistando uma comunidade extremamente dedicada e, segundo Kuhlmann, criou uma situação que poderia ser delicada para quem controla uma franquia.

O ex-desenvolvedor explica que surgiu entre parte dos jogadores a percepção de que Obsidian seria melhor em fazer Fallout do que a própria Bethesda, levando a comentários de que a série deveria simplesmente ser entregue ao estúdio.

Kuhlmann acredita que Todd Howard provavelmente não queria repetir esse cenário com The Elder Scrolls.

“O caso de New Vegas criou essa percepção de ‘quem faz um Fallout melhor?’”

A questão, portanto, não seria necessariamente que Bethesda não confiasse em outros desenvolvedores, mas o risco de um projeto derivado se tornar tão querido que parte do público passasse a preferir aquela interpretação da franquia.

The Elder Scrolls tinha uma relação diferente com Bethesda

Existe ainda uma diferença histórica importante entre as duas propriedades.

A Bethesda assumiu o controle da franquia Fallout quando adquiriu a propriedade intelectual da Interplay em 2004. The Elder Scrolls, por outro lado, é uma franquia construída pela própria Bethesda desde seus primeiros jogos.

Para Kuhlmann, essa diferença ajuda a explicar por que a empresa teria uma relação ainda mais protetora com The Elder Scrolls.

Ele afirma que, durante o período em que trabalhou na Bethesda, percebeu que Todd Howard era “muito protetor” da franquia.

Isso não significa que exista uma decisão pública de Howard proibindo qualquer outro estúdio de desenvolver um jogo de The Elder Scrolls. Trata-se da interpretação de Kuhlmann sobre a postura do executivo e sobre as razões pelas quais a Bethesda não seguiu o mesmo caminho adotado com Fallout.

The Elder Scrolls Online pode ter diminuído a pressão

Kuhlmann também apresenta outro elemento interessante para explicar por que Bethesda conseguiu passar tantos anos sem lançar um novo RPG single-player principal da série.

Para ele, The Elder Scrolls Online ajudou a diminuir a pressão por uma nova aventura solo.

Embora ESO seja muito diferente de um jogo como Skyrim, o MMO continuou recebendo conteúdo durante anos e manteve a marca constantemente presente entre os jogadores.

Kuhlmann acredita que isso permitiu à Bethesda concentrar seus esforços em Starfield sem enfrentar a mesma pressão que poderia existir caso The Elder Scrolls estivesse completamente ausente do mercado.

Ele também ressalta que existe uma parcela considerável do público para quem The Elder Scrolls Online é justamente sua principal experiência com a franquia.

Para esses jogadores, portanto, o MMO não seria simplesmente um produto paralelo enquanto aguardam The Elder Scrolls 6. É o próprio The Elder Scrolls que eles conhecem e gostam.

The Elder Scrolls 6 continua sem data

Enquanto isso, The Elder Scrolls 6 continua sendo uma das produções mais aguardadas da Bethesda.

O jogo foi anunciado com um teaser durante a E3 2018, mas a Bethesda deixou claro pouco depois que seu lançamento ainda estava distante. Em 2023, o projeto ainda era descrito como estando em desenvolvimento inicial.

Já se passaram oito anos desde aquele primeiro teaser e o público ainda não recebeu uma apresentação significativa do jogo.

Nos últimos meses, porém, executivos da Xbox e da Microsoft voltaram a comentar sobre o projeto.

Em junho, Matt Booty afirmou que The Elder Scrolls 6 “parece incrível”. Em agosto, Asha Sharma também comentou sobre o jogo durante uma visita à Bethesda, descrevendo sua escala e grandiosidade como “incríveis”.

Essas declarações, entretanto, não vieram acompanhadas de uma data de lançamento ou de uma nova apresentação oficial do projeto.

Um spin-off poderia ter mudado essa espera?

A hipótese levantada por Kuhlmann também coloca uma questão interessante sobre o longo intervalo entre Skyrim e The Elder Scrolls 6.

Skyrim foi lançado em 2011 e, desde então, a franquia recebeu expansões, remasterizações, versões para diferentes plataformas e The Elder Scrolls Online, mas não teve um novo RPG single-player desenvolvido por outro estúdio no estilo de New Vegas.

Se Bethesda tivesse seguido uma estratégia semelhante à adotada com Fallout, poderíamos ter visto outro estúdio explorar Tamriel enquanto a equipe principal trabalhava em outros projetos.

Mas isso também teria criado exatamente o risco apontado por Kuhlmann: um eventual spin-off poderia conquistar uma parcela do público de maneira tão forte que surgiriam comparações entre as diferentes equipes.

Por enquanto, a explicação sobre essa decisão continua sendo uma interpretação de um ex-desenvolvedor, e não uma justificativa oficialmente apresentada por Todd Howard ou pela Bethesda.

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Essa história é interessante porque toca numa coisa que sempre me chamou atenção em The Elder Scrolls: a Bethesda praticamente trata Tamriel como seu território sagrado.

E dá para entender o raciocínio.

Fallout já tinha uma história anterior à Bethesda, então entregar New Vegas para a Obsidian não significava criar uma interpretação completamente nova de uma propriedade que nasceu dentro da própria empresa. The Elder Scrolls é diferente. É uma das marcas que ajudaram a construir a identidade da Bethesda.

Só que aí vem a parte curiosa.

Skyrim saiu em 2011.

Estamos falando de quinze anos desde o lançamento original. Nesse período, tivemos versões de Skyrim para praticamente tudo que tinha uma tomada, The Elder Scrolls Online continuando firme e forte, e agora estamos há oito anos desde aquele teaser de The Elder Scrolls 6.

Talvez Kuhlmann esteja certo ao dizer que ESO ajudou a aliviar a pressão. Afinal, enquanto a Bethesda trabalhava em Starfield, havia um enorme jogo de The Elder Scrolls recebendo conteúdo continuamente.

Mas eu fico pensando em outra coisa.

Será que um “The Elder Scrolls: New Vegas”, feito por outro estúdio com liberdade criativa, teria sido uma experiência interessante? Talvez. Poderia ter dado errado? Também.

E talvez esse seja justamente o ponto. Quando você entrega uma franquia para outra equipe, existe sempre a possibilidade de ela fazer algo tão bom que o público começa a perguntar por que aquela equipe não está fazendo tudo.

A Obsidian sabe muito bem como essa história terminou. 

Enquanto isso, nós continuamos naquele velho ritual: esperar notícias de The Elder Scrolls 6, ouvir alguém da Xbox dizer que o jogo está “incrível”, olhar para o calendário e perceber que Skyrim continua ficando mais jovem que a espera pelo próximo capítulo.

Agora só falta a Bethesda anunciar Skyrim para a geladeira e fechar o ciclo. 

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