O próximo Mass Effect continua envolto em mistério, mas uma pessoa que conhece muito bem a franquia acredita que a BioWare tem tudo para entregar um grande jogo. Para Armando Troisi, ex-desenvolvedor da série, o principal conselho neste momento não é uma nova mecânica, uma mudança na história ou qualquer fórmula revolucionária.

É bem mais simples: deixem os criadores fazerem o trabalho deles.
Troisi trabalhou como designer cinematográfico no primeiro Mass Effect e foi o principal designer cinematográfico de Mass Effect 2. Ele também atuou como diretor de narrativa em Halo 4 e, em entrevista ao FRVR, foi questionado sobre que conselho daria à equipe responsável pelo próximo capítulo da franquia.
A resposta foi praticamente: nenhum. Eles já sabem o que estão fazendo.
Os veteranos da trilogia original ainda estão lá
Segundo Troisi, existem profissionais importantes da trilogia original trabalhando no próximo Mass Effect, incluindo Preston Watamaniuk, designer-chefe dos primeiros jogos, Derek Watts, diretor de arte, e Parrish Ley, responsável pela animação cinematográfica.
Para ele, esses desenvolvedores são parte daquilo que chamou de “OGs” da franquia e conhecem profundamente o DNA de Mass Effect.
Troisi lembrou inclusive uma mensagem que recebeu de Watamaniuk quando deixou a equipe depois de Mass Effect 2:
“Paixão e técnica são excelência.”
Para o ex-desenvolvedor, esses dois elementos continuam presentes na equipe atual.
E por isso ele não acredita que precise ensinar aos veteranos como fazer um Mass Effect.
Eles já sabem.
O segredo seria simplesmente não atrapalhar
A parte mais interessante dos comentários de Troisi veio quando ele falou sobre o que pode determinar o sucesso do próximo jogo.
Na visão dele, a BioWare precisa receber liberdade suficiente para executar sua própria visão.
“Se as pessoas saírem do caminho e deixarem os criadores fazerem o trabalho deles, você nunca sabe a magia que eles podem criar.”
É uma declaração que ganha um peso extra considerando o histórico recente da BioWare.
Embora Troisi não tenha citado diretamente Dragon Age: The Veilguard como exemplo, seus comentários parecem dialogar com relatos sobre o desenvolvimento do jogo e a influência que a estratégia de jogos como serviço teve sobre o projeto antes de a BioWare mudar novamente sua direção.
Segundo relatos anteriores, o estúdio teria passado por um período em que foi pressionado a transformar The Veilguard em uma experiência de serviço contínuo, antes de retornar ao foco single-player.
Para Troisi, interferências desse tipo podem acabar afastando um estúdio daquilo que ele sabe fazer melhor.
A fórmula BioWare ainda funciona
O ex-desenvolvedor também falou sobre aquilo que considera a verdadeira força histórica da BioWare.
Segundo ele, existia uma fórmula bastante clara: criar RPGs cinematográficos de alto nível, aprimorar essa fórmula a cada novo projeto e continuar evoluindo a experiência.
Essa filosofia teria sido o grande direcionamento do estúdio durante seus melhores anos.
O problema veio quando a indústria entrou com força na chamada era dos jogos como serviço.
Troisi reconhece que esse período ainda não desapareceu completamente, mas perdeu parte da força que tinha alguns anos atrás. E, como acontece com praticamente todos os grandes estúdios, a BioWare também precisa lidar com empresas, investidores e outros stakeholders que influenciam as decisões.
É justamente nesse ponto que ele acredita que o estúdio precisa recuperar sua identidade.
Single-player é onde a BioWare pode brilhar
Para Troisi, quando a BioWare concentra seus esforços em uma experiência single-player, narrativa e interativa, combinada com combate profundo e sistemas de progressão, poucos estúdios conseguem competir com ela.
E isso é especialmente relevante para Mass Effect.
A franquia nasceu justamente dessa combinação de RPG, escolhas narrativas, personagens memoráveis e uma enorme história de ficção científica que se desenvolve conforme o jogador toma decisões.
Não é apenas sobre derrotar o próximo inimigo ou conseguir um equipamento melhor.
É sobre criar uma tripulação, estabelecer relações, fazer escolhas e depois descobrir que aquela decisão aparentemente pequena de três horas atrás acabou voltando para cobrar a conta.
A BioWare sabe fazer esse tipo de coisa.
“Estou torcendo por eles”
Troisi terminou sua avaliação de maneira bastante otimista.
Ele reconhece que desenvolver um jogo do tamanho de Mass Effect envolve inúmeros fatores e que não existe garantia de sucesso. Mas acredita que, se a equipe tiver confiança, liberdade e espaço para executar sua visão, a BioWare pode voltar a entregar algo realmente especial.
Ele comparou esse momento da BioWare a uma espécie de jornada de autodescoberta do próprio Master Chief, personagem de Halo.
A ideia é que o estúdio teria passado por um período turbulento, experimentado diferentes caminhos e agora poderia retornar às suas raízes.
A própria BioWare confirmou anteriormente que o próximo Mass Effect continua em desenvolvimento, embora os detalhes sobre a história, personagens, gameplay e janela de lançamento permaneçam extremamente limitados.
E talvez seja melhor assim por enquanto.
Clima SussuWorld 🌌🎮
Tem uma frase nessa entrevista que, para mim, resume uma discussão enorme da indústria atual:
“Confie nas suas pessoas.”
Porque a BioWare não precisa descobrir como fazer um RPG narrativo. Ela já fez isso.
Mass Effect, Dragon Age, Knights of the Old Republic... existe uma história gigantesca ali. O talento nunca pareceu ser o problema. O problema, muitas vezes, foi o caminho que as decisões corporativas colocaram na frente desses talentos.
E eu gostei bastante da comparação com o Master Chief.
É quase aquela história do cara que passa anos andando para todo lado, enfrentando crise atrás de crise e, em determinado momento, para, olha para trás e pensa:
“Talvez eu devesse voltar a fazer aquilo em que eu era bom.”
Se os veteranos realmente estão envolvidos no próximo Mass Effect e a BioWare tiver liberdade para construir um RPG single-player, cinematográfico, profundo e focado em narrativa, existe motivo para ficar otimista.
Agora é deixar os caras trabalharem.
Porque depois de tudo que a indústria já aprendeu sobre tentar transformar cada franquia em uma máquina de serviço, talvez a maior novidade que Mass Effect possa trazer seja justamente...ser um ótimo Mass Effect.
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