A equipe Team RICOCHET, responsável pelo sistema antitrapaças de Call of Duty, afirma ter interrompido as operações de 375 entidades ligadas ao mercado de cheats e contribuído diretamente para o fechamento de 31 dos principais fornecedores.

Os números foram apresentados pela própria equipe em uma nova publicação detalhando como a Activision vem enfrentando o crescente mercado de trapaças nos jogos online.
O problema está longe de ser novo. Cheats acompanham os jogos multiplayer há décadas, mas a evolução tecnológica transformou esse mercado em uma operação cada vez mais sofisticada, com desenvolvedores especializados, revendedores, sistemas de assinatura e diferentes mecanismos para tentar escapar das ferramentas de detecção.
Segundo a análise do Team RICOCHET, esse ecossistema movimenta mais de US$ 8,5 bilhões. O valor é uma estimativa produzida pela própria equipe a partir de suas investigações e, portanto, deve ser entendido nesse contexto, e não como um levantamento independente de toda a indústria mundial de cheats.
Mercado de cheats funciona como uma cadeia organizada
De acordo com o Team RICOCHET, os desenvolvedores de cheats ocupam o topo de uma estrutura que envolve diferentes operadores.

Alguns desses grupos seriam organizações capazes de movimentar milhões de dólares e trabalhar com intermediários responsáveis por distribuir os programas. Dessa maneira, os próprios desenvolvedores nem sempre aparecem diretamente na comercialização dos produtos que criam.
Isso também permite que um mesmo mecanismo de trapaça apareça associado a diferentes fornecedores e marcas, dificultando o trabalho das equipes responsáveis por combater essas ferramentas.
Para o jogador comum, isso significa que derrubar um determinado site ou fornecedor não necessariamente elimina o cheat. Outro grupo pode simplesmente assumir a distribuição ou adaptar a mesma tecnologia para continuar funcionando.
RICOCHET já interrompeu centenas de operações
O Team RICOCHET afirma que atualmente acompanha centenas de fornecedores envolvidos nesse mercado.
Até agora, a equipe diz ter conseguido interromper as operações de 375 entidades e enviado aproximadamente 100 notificações de cease and desist por meio de medidas legais.
Além disso, o trabalho teria contribuído diretamente para o encerramento de 31 dos principais fornecedores de cheats.
A dificuldade está justamente na velocidade com que esses grupos conseguem reaparecer. Quando uma operação é derrubada, outra pode surgir utilizando uma nova identidade, uma infraestrutura diferente ou uma versão modificada da mesma tecnologia.
É uma espécie de jogo de gato e rato que acontece longe das partidas, nos bastidores da própria indústria.
Como o Team RICOCHET identifica os trapaceiros
Para tentar acompanhar essa evolução, o sistema antitrapaças de Call of Duty utiliza diferentes camadas de detecção.
O Team RICOCHET afirma empregar varredura de software, análise comportamental, modelos de machine learning e soluções baseadas em inteligência artificial para identificar comportamentos associados a trapaças.
A ideia é não depender exclusivamente da descoberta de um determinado programa. Observar o comportamento do jogador permite procurar padrões que possam indicar uma atividade irregular mesmo quando o software utilizado pelo trapaceiro tenta escapar das ferramentas tradicionais.
Esse tipo de abordagem é particularmente importante porque os cheats também evoluíram. Em vez de simplesmente alterar arquivos do jogo de maneira facilmente identificável, algumas ferramentas são desenvolvidas justamente para evitar a detecção.
Comprar cheats também pode colocar os próprios jogadores em risco
Existe ainda um aspecto menos discutido desse mercado: quem compra um cheat também pode acabar se tornando vítima dos próprios fornecedores.
Segundo o Team RICOCHET, alguns operadores coletam informações dos clientes, incluindo conteúdo utilizado para verificação de contas, endereços IP, identificadores de hardware, e-mails e dados relacionados a pagamentos.
Também existem casos em que supostos cheats carregam malware, transformando o computador do próprio comprador em alvo.
Isso cria uma situação particularmente curiosa: o jogador paga para obter uma vantagem em uma partida e pode acabar entregando informações pessoais ou acesso ao próprio computador para quem vendeu o programa.
Um negócio de bilhões de dólares
O tamanho econômico estimado pelo Team RICOCHET ajuda a explicar por que combater esse mercado é tão complicado.
Segundo a equipe, um único trapaceiro poderia gastar até US$ 1.000 por ano para continuar utilizando cheats, considerando novas contas, assinaturas e diferentes pacotes de ferramentas.
Quando um fornecedor é derrubado em determinada plataforma, alguns desses serviços também podem tentar migrar suas operações para outros ambientes.
O resultado é um mercado que consegue gerar receitas significativas e, consequentemente, possui recursos para financiar novas ferramentas e técnicas de evasão.
É justamente por isso que o combate aos cheats deixou de ser apenas uma questão de criar um programa que detecta arquivos suspeitos. Atualmente, empresas como a Activision precisam lidar com uma estrutura que envolve tecnologia, engenharia reversa, segurança, análise de dados e também medidas legais.
A batalha contra os cheats está longe de terminar
O próprio histórico do mercado mostra por que nenhuma ferramenta antitrapaça pode ser considerada uma solução definitiva.
Enquanto os desenvolvedores dos jogos aprimoram seus sistemas de proteção, os criadores de cheats procuram novas maneiras de evitar a detecção. Quando uma técnica deixa de funcionar, outra é desenvolvida.
O Team RICOCHET afirma que continuará evoluindo suas ferramentas e perseguindo os operadores responsáveis pela distribuição dessas tecnologias.
Para os jogadores de Call of Duty, o resultado dessa disputa aparece diretamente nas partidas. Quanto mais eficiente for a detecção, menor tende a ser o espaço para jogadores que utilizam ferramentas externas para obter vantagens.
Mas, considerando o tamanho estimado desse mercado e a velocidade com que novos fornecedores conseguem aparecer, essa é uma batalha que provavelmente continuará por muito tempo.
Clima SussuWorld
Essa história mostra uma coisa que às vezes passa despercebida: o cheat deixou de ser simplesmente aquele programinha que o sujeito baixava para ficar atravessando parede no servidor.
Existe dinheiro pesado envolvido nisso.
Tem desenvolvedor, fornecedor, assinatura, revenda, infraestrutura e, segundo o Team RICOCHET, até grupos capazes de movimentar milhões. Quando você coloca bilhões de dólares estimados nesse ecossistema, começa a entender por que o combate é tão difícil.
E tem uma parte especialmente absurda: o sujeito paga para trapacear e ainda corre o risco de ser roubado pelo próprio vendedor do cheat.
Você quer entrar no Call of Duty se achando o Rambo e pode terminar entregando IP, e-mail, informações do computador ou dados de pagamento para um desconhecido.
Agora, uma coisa precisa ficar bem clara: o número de US$ 8,5 bilhões apresentado aqui é uma estimativa do próprio Team RICOCHET. Não é correto pegar esse valor e dizer que “está comprovado que a indústria de cheats movimenta US$ 8,5 bilhões”. A informação correta é que a equipe da Activision estima esse mercado nesse patamar.
E acho que esse é justamente o tipo de detalhe que vale preservar no SussuWorld.
Não precisamos aumentar a história para ela parecer maior.
Os números que já existem são grandes o suficiente.
375 entidades interrompidas, 31 grandes fornecedores derrubados e quase 100 notificações legais. E, enquanto um cai, outro tenta aparecer.
No fim, quem mais perde nessa brincadeira é justamente quem entra no multiplayer querendo jogar honestamente. Porque ninguém compra um jogo para passar quarenta minutos procurando uma partida e descobrir que o adversário está vendo através da parede.
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