Ex-roteirista e cofundador da Rockstar diz que prefere não acompanhar o novo Grand Theft Auto para evitar influências sobre seus próprios projetos.

Dan Houser passou décadas ajudando a definir a identidade narrativa de alguns dos maiores jogos da Rockstar Games. Mesmo assim, existe um dos lançamentos mais aguardados da história dos videogames que ele está fazendo questão de manter à distância: Grand Theft Auto 6.
O cofundador da Rockstar e antigo roteirista principal da franquia revelou que ainda não assistiu sequer à apresentação estendida de GTA 6 e pretende continuar evitando o material enquanto trabalha nos projetos de sua nova empresa, a Absurd Ventures.
A decisão não tem relação com qualquer ressentimento em relação à Rockstar. É uma escolha criativa.
“Vou tentar evitar”
Em entrevista, Houser explicou que deliberadamente evita acompanhar aquilo que outras equipes estão fazendo quando acredita que determinado trabalho pode influenciar sua própria criatividade.
Por isso, mesmo sendo uma das pessoas que mais ajudaram a construir Grand Theft Auto, ele ainda não assistiu ao conteúdo estendido de GTA 6.
“Eu ainda não vi. Vou tentar evitar, porque sempre tento evitar coisas que possam me distrair ou interromper criativamente”, explicou.
A preocupação é especialmente relevante porque Houser continua trabalhando justamente com o tipo de experiência que ajudou a popularizar.
A Absurd Ventures está desenvolvendo atualmente dois jogos de mundo aberto, sendo que um deles é descrito como uma aventura de ação com forte componente de comédia, enquanto o outro terá um tom consideravelmente menos humorístico.
Ou seja, ficar acompanhando tudo que Rockstar está fazendo com GTA 6 poderia acabar colocando referências e ideias na cabeça de alguém que está tentando construir algo diferente.
Houser não gosta de jogar outros mundos abertos
A estratégia vai muito além de GTA 6.
Houser revelou que também evita jogar muitos outros jogos de mundo aberto porque tende a analisá-los automaticamente enquanto joga.
Em vez de simplesmente aproveitar a experiência, ele começa a desmontar mentalmente aquilo que está acontecendo.
Ele observa animações, design, sistemas e decisões tomadas pelas equipes e começa a pensar em como cada elemento foi construído.
“Consigo quase desconstruir os pontos fortes e fracos da equipe em tempo real, e isso é uma distração”, explicou.
Segundo ele, pensamentos como “a equipe de animação deles é fraca” ou “esse design de jogo é fantástico” começam a surgir naturalmente.
E existe ainda uma segunda camada: imaginar as discussões internas que provavelmente aconteceram durante a produção.
É exatamente esse tipo de análise que Houser quer evitar enquanto desenvolve seus próprios projetos.
“Não quero ficar pensando no que eu faria diferente”
Houser explicou que não considera sua função simplesmente acompanhar aquilo que está acontecendo na indústria.
Ele se descreve mais como um diretor criativo do que como um designer tradicional de jogos.
Seu objetivo é procurar ideias que ainda não foram exploradas ou encontrar inspiração em outras formas de mídia e em conceitos que já existiam muito antes dos videogames.
“Estou sempre tentando pensar em novas maneiras de fazer isso, não ficar sentado fazendo algum tipo de comparação sobre o que eu teria feito diferente.”
Essa filosofia ajuda a explicar por que ele prefere limitar conscientemente aquilo que consome enquanto trabalha.
A ideia não é ignorar completamente o mercado. A equipe da Absurd Ventures acompanha os lançamentos e tendências atuais.
A diferença é que Houser não quer ser a pessoa responsável por saber exatamente o que todos os outros estão fazendo.
A mesma estratégia foi usada durante Red Dead Redemption
Houser revelou que esse comportamento não começou agora.
Durante o desenvolvimento de Red Dead Redemption, ele decidiu parar de assistir a filmes e outras produções do gênero Western.
A intenção era evitar que o material influenciasse diretamente o trabalho que estava sendo realizado dentro da Rockstar.
Algo semelhante aconteceu com The Sopranos.
Houser não acompanhou a série durante o período em que trabalhava na Rockstar. Na verdade, ele só assistiu a um episódio enquanto ela ainda estava sendo exibida, quando acompanhou o episódio final ao lado de sua então namorada, que posteriormente se tornou sua esposa.
Foi apenas durante a pandemia de COVID-19 que ele finalmente assistiu à série completa.
E ele considera isso algo positivo.
Segundo Houser, The Sopranos era tão boa que provavelmente teria influenciado seu trabalho em GTA caso tivesse acompanhado a produção enquanto estava desenvolvendo os jogos.
O homem por trás de GTA agora quer olhar para outro caminho
A trajetória de Houser ajuda a tornar essa história particularmente interessante.
Ele participou da criação e escrita de alguns dos maiores jogos da Rockstar, incluindo Grand Theft Auto III, Grand Theft Auto IV, Grand Theft Auto V, Red Dead Redemption, Red Dead Redemption 2, Bully e Max Payne 3.
Depois de deixar a Rockstar em 2020, fundou a Absurd Ventures, empresa voltada para a criação de novas propriedades intelectuais e experiências em diferentes formatos.
Agora, enquanto sua antiga empresa prepara GTA 6, Houser trabalha para construir algo próprio.
E isso cria uma situação bastante curiosa.
De um lado está a Rockstar, desenvolvendo o próximo capítulo de uma franquia que ajudou a redefinir os mundos abertos.
Do outro está um dos principais responsáveis pela identidade criativa desses jogos, tentando deliberadamente não olhar para aquilo que sua antiga equipe está fazendo.
Dois mundos abertos estão em desenvolvimento
A Absurd Ventures atualmente trabalha em dois jogos de mundo aberto.
Um deles será uma aventura de ação com forte componente de comédia.
O outro terá uma abordagem diferente e será descrito por Houser como algo “definitivamente menos cômico”.
Ainda existem poucos detalhes sobre os projetos, mas fica claro que a empresa pretende trabalhar justamente em um território no qual Houser possui décadas de experiência.
A diferença é que, desta vez, ele não quer simplesmente repetir GTA.
E talvez seja justamente por isso que esteja mantendo GTA 6 longe de seus olhos.
🎮 Clima SussuWorld
Essa história é curiosa porque, no fundo, Dan Houser está fazendo uma coisa que parece contraintuitiva para alguém que trabalha com videogames: ele está evitando jogar videogames para conseguir pensar melhor sobre videogames.
E eu consigo entender perfeitamente a lógica.
Imagine passar anos construindo mundos abertos e, toda vez que jogar um concorrente, seu cérebro automaticamente começar a trabalhar: “essa animação poderia ser melhor”, “essa missão funciona muito bem”, “eu faria isso de outra maneira”, “essa mecânica é interessante”.
Você deixa de ser jogador e vira uma reunião de desenvolvimento ambulante.
O caso de GTA 6 é ainda mais interessante porque Houser conhece aquela fórmula por dentro. Ele não está evitando o jogo porque não quer saber o que a Rockstar está fazendo. Ele está evitando justamente porque sabe que olhar poderia influenciá-lo demais.
E existe uma ironia deliciosa nisso tudo: enquanto milhões de jogadores estão contando os dias para finalmente descobrir tudo sobre GTA 6, um dos homens que ajudou a criar a identidade moderna da franquia está fazendo força para não descobrir nada.
Agora quero muito ver o que a Absurd Ventures está preparando.
Porque se Dan Houser realmente conseguir ficar longe de GTA 6 e construir um novo mundo aberto sem ficar pensando no que a Rockstar está fazendo, podemos acabar descobrindo uma coisa interessante: o que acontece quando uma das principais cabeças criativas de GTA decide sair da sombra do próprio GTA.
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