O mundo dos games parou por um instante esta semana. Um memorial especial foi realizado no Japão para celebrar a vida de Tomonobu Itagaki, fundador da Team Ninja, pai de Dead or Alive, mente por trás de Ninja Gaiden e um dos designers mais intensos e inconfundíveis da história da indústria.
E, entre tributos, espadas, artes raras e até algumas peças clássicas do visual dele, um discurso roubou a cena: o de Yosuke Hayashi, atual vice-presidente da Koei Tecmo - e ex-discípulo direto de Itagaki.
Foi um daqueles momentos que fazem qualquer fã de Ninja Gaiden respirar fundo.
Hayashi subiu ao palco e começou lembrando seu primeiro contato com o mito. Voltemos para 2001: ele tinha acabado de entrar na empresa, cheio de sonhos, só para ouvir de Itagaki algo mais ou menos assim:
“Não tenho trabalho pra você.”
E ficou dois semanas literalmente sem tarefas. Zero. Nada. Um início que o próprio Hayashi descreve como “o pior encontro possível”. Mas, como acontece nos melhores roteiros, isso foi só o começo.
Hayashi lembrou com carinho - e um pouco de trauma - dos meses de desenvolvimento do Ninja Gaiden de 2004. Segundo ele, o estúdio estava um caos. O jogo parecia impossível de terminar.
Só que Itagaki… não desistia.
Nunca.
Os dois trabalharam juntos 12 horas por noite, durante seis meses, revisando ajuste por ajuste. Quem é fã da franquia sabe: aquele Ninja Gaiden não foi só um jogo, foi um marco. E nasceu ali, no limite da exaustão, com um líder que vivia no modo “faca nos dentes”.
Hayashi chamou esse período de “um tesouro da minha carreira”.
Depois do estouro de Black, DOA e outros projetos, veio a separação. Itagaki saiu da Koei Tecmo - e com ele, o contato entre os dois praticamente sumiu. Mas antes de partir, ele deixou uma única frase para Hayashi:
“Não mude o logo.”
Só isso. Um pedido direto, quase enigmático, mas carregado de significado para quem viveu aquela época intensa dentro da Team Ninja.
Quase vinte anos depois, algo mudou. Há cerca de um ano, Itagaki voltou a mandar mensagens para Hayashi. E, curiosamente, agora escrevia de forma educada - algo que o executivo achou “estranho”, já que o velho mestre sempre falava no imperativo.
A última mensagem de Itagaki para ele foi esta - e Hayashi a leu em voz alta no memorial:
“Obrigado por lembrar da nossa promessa. Os tempos mudaram… vender um milhão já não significa muita coisa para o mundo. Entramos nessa era. Continue fazendo ótimos produtos.”
Pesado. Bonito. Itagaki até o fim.
Hayashi encerrou com um desabafo que deixou muita gente emocionada:
“Eu lutei incansavelmente porque queria sua aprovação. Será que consegui pelo menos um pouco?”
Ele conta que guarda o cartão de visita de Itagaki datado de 16 de outubro - coincidentemente, o mesmo dia em que registrou seu casamento. A esposa, ao saber disso, disse: “Você realmente tinha uma conexão com ele”.
E Hayashi completou:
“Eu lutei até o fim”: a despedida final de Itagaki“Não foi o pior encontro. Foi o melhor.”
Após sua morte, uma mensagem final foi postada em sua página:
“Minha vida foi uma série de batalhas. Continuei vencendo. Também causei muitos problemas. Tenho orgulho de ter seguido minhas crenças até o fim. Não tenho arrependimentos.”
É Itagaki sendo Itagaki até o último segundo.
A indústria perde uma lenda.
Os fãs, um símbolo.
E quem trabalhou com ele, um líder impossível de substituir.
Mas o legado? Esse fica. E fica gigante e para sempre.
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