A decisão da Sony de encerrar a produção de discos físicos para PlayStation a partir de 2028 já começa a provocar reações nos bastidores da indústria. E, aparentemente, o clima entre algumas editoras e produtoras está bem menos tranquilo do que o silêncio público faz parecer.

Durante a Gamescom 2026, o assunto teria circulado bastante entre profissionais do mercado. John Linneman, do Digital Foundry, revelou que conversou com diversas pessoas de editoras e produtoras durante o evento e ouviu críticas fortes à decisão da Sony. O problema, segundo ele, é que o impacto não será distribuído igualmente. Enquanto as gigantes do mercado provavelmente conseguirão absorver a mudança sem grandes dificuldades, empresas menores, especialmente aquelas que ainda dependem bastante das vendas físicas, podem sentir o golpe de maneira bem mais pesada.
O físico ainda é importante para muita gente
No mais recente episódio do DF Direct, Linneman comentou justamente sobre a iniciativa da Xbox de transformar determinados discos físicos em licenças digitais e aproveitou para falar sobre o que ouviu nos corredores da Gamescom.
Segundo ele, muitas empresas com as quais conversou estão bastante incomodadas com o caminho escolhido pela Sony. Para algumas delas, as vendas físicas ainda representam uma parcela importante do retorno financeiro de seus jogos, principalmente em determinados mercados e segmentos.
E existe uma alternativa que já começa a ganhar força entre essas empresas: apostar ainda mais no Nintendo Switch 2.
A lógica é relativamente simples. Se o mercado PlayStation caminhar definitivamente para um modelo sem mídia física, a Nintendo pode acabar se tornando uma das principais plataformas para editoras que ainda querem trabalhar com jogos em caixa, cartucho e distribuição tradicional. Linneman afirma ter percebido justamente esse movimento durante a Gamescom.
Para os grandes lançamentos AAA, a situação é diferente. Empresas que colocam milhões de cópias nas lojas e possuem uma estrutura gigantesca de distribuição provavelmente terão muito mais facilidade para se adaptar. Para uma editora menor, porém, perder uma fatia importante do mercado físico pode representar uma mudança gigantesca no modelo de negócio.
Existe ressentimento nos bastidores
O ponto mais interessante dos comentários de Linneman é justamente a percepção de que existe um certo ressentimento em relação à Sony dentro da própria indústria.
Publicamente, poucas empresas vão partir para o confronto direto com uma das maiores plataformas do mercado. Afinal, continuar lançando jogos no PlayStation ainda é fundamental para praticamente qualquer editora. Mas isso não significa que todo mundo esteja feliz com o rumo tomado pela companhia.
Linneman também deixou claro que não espera uma espécie de revolta coletiva em que produtoras simplesmente abandonarão o PlayStation. A realidade comercial não permite esse tipo de movimento com facilidade. O que pode acontecer, entretanto, é uma mudança gradual de prioridades.
E aí entra novamente o Switch 2. Se a Nintendo continuar oferecendo um mercado físico relevante, algumas empresas podem começar a enxergar a plataforma como uma espécie de porto seguro para preservar esse modelo de distribuição.
A questão é que a Sony parece estar apostando cada vez mais na força de sua enorme base instalada e na capacidade de transformar jogadores existentes em receita recorrente. O próprio CEO da companhia, Hiroki Totoki, afirmou recentemente que a prioridade neste estágio da geração está menos em vender agressivamente novos PS5 e mais em monetizar a enorme comunidade que já está dentro do ecossistema PlayStation.
Só que existe uma diferença importante entre controlar a experiência do consumidor e controlar as necessidades de quem produz os jogos.
Se uma parte da indústria começar a considerar que o desaparecimento do físico torna o PlayStation menos interessante para determinados lançamentos, a consequência talvez não apareça imediatamente nas prateleiras. Pode surgir aos poucos, na escolha de plataformas, na distribuição de edições especiais, na quantidade de cópias físicas produzidas e até na prioridade dada a cada versão.
A Sony certamente não está tomando essa decisão no escuro. O mercado físico vem diminuindo há anos e a distribuição digital oferece vantagens enormes para as plataformas. Mas a Gamescom mostrou uma coisa interessante: para uma parcela da indústria, o disco ainda está longe de ser apenas uma tecnologia velha esperando para morrer.
E quando uma mudança dessas começa a incomodar justamente quem produz os jogos que alimentam uma plataforma, vale ficar de olho.
Clima Sussuworld
A Sony está olhando para um futuro em que o PlayStation será cada vez mais digital. Faz sentido do ponto de vista comercial? Faz. Mas existe uma diferença enorme entre dizer que o físico está diminuindo e decidir que ele praticamente não terá mais espaço.
E talvez seja aí que esteja o verdadeiro problema.
Se as grandes editoras conseguem simplesmente acompanhar a mudança, ótimo. Mas se produtoras menores começarem a olhar para o Switch 2 e pensar “é aqui que ainda consigo vender meu jogo fisicamente”, a Sony pode descobrir que matar o disco não significa apenas mudar a forma como o jogador compra seus jogos. Significa também mexer na maneira como uma parte da indústria escolhe onde colocar seus jogos.
A bola agora está no campo da Nintendo. E esse campo pode ficar bem mais interessante nos próximos anos.
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