Se alguém chegasse em 1992 e falasse “tem um jogo novo de navinha, mas no lugar da nave, você controla uma abelha”, a resposta provavelmente seria:
“Beleza… quero jogar.”
E é exatamente essa maluquice que é Apidya.

Apidya' Special parece um shoot’em up clássico logo de cara. Só que esquece nave espacial e soldado futurista. Aqui você é uma abelha. Pronto. Imagina um R-Type de abelha. É basicamente isso.
Só que tem história.
E que história.
Você controla Ikuro. A esposa dele, Yuko, foi envenenada pelas forças de Exide. Pra tentar salvar ela, o cara usa uma magia ancestral, vira abelha e parte pra cima dos responsáveis.
Não, eu não inventei isso. É sério.
E talvez seja justamente por isso que o jogo tenha tanto charme.
O original saiu em 1992 no Commodore Amiga. Agora volta no Apidya' Special, reconstruído do zero pela equipe original junto com um super fã que virou programador. A ideia era manter o jogo fiel, mas com apresentação moderna: pixel art nova, efeitos, músicas remixadas e widescreen.
E os caras fizeram isso direito.

O que mais gostei foi perceber que eles não tentaram consertar o que não precisava. Não pegaram Apidya e transformaram em outra coisa. Homenagearam o original.
As fases foram refeitas à mão, com fundos novos, mas a identidade de 1992 continua lá. E tem um detalhe sensacional: você aperta um botão e troca na hora entre a versão atual e a original do Amiga.
Na fase da lagoa isso me pegou de verdade.

Você tá na versão nova, com montanha ao fundo, água transparente e um monte de detalhe. Aperta o botão e volta pro visual 4:3 do Amiga. Aperta de novo e volta pro Special.
Vale mais do que qualquer explicação. Você vê o trabalho dos caras na sua frente.

Tem filtro CRT também, com scanline e bloom pra quem quer TV antiga. Eu prefiro sem. Gosto de ver o pixel e o sprite do jeito que foram feitos. Mas a opção tá lá.
Agora vamos ao jogo.
Porque bonito é.
Mas o desgraçado quer te matar. O TEMPO TODO !!
Apidya' Special é difícil pra cacete. Estilo R-Type mesmo. Você entra achando que vai dar uma voltinha e o jogo responde: “beleza, então toma”. Inimigo de todo lado, bicho voando na cara, coisa aparecendo de onde você menos espera. Tem padrão que exige memória, atenção e uma agilidade que talvez a gente tivesse mais quando era moleque.
Você vai morrer.
Muito.
Antes de começar dá pra ajustar um monte de coisa: dificuldade, vidas, continues, frequência de vida extra. Duas opções eu recomendo prestar atenção.
Reset Stage on Death. Se deixar ligada, morreu, volta pro começo da fase. Eu desliguei. Prefiro cair e continuar dali.

Também dá pra escolher se perde ou não o upgrade da arma quando morre. Eu deixei desligado. Já basta o jogo tentar me matar a cada cinco segundos.
Ainda tem 50 FPS ou 60 FPS, pra quem quer reproduzir a experiência antiga. São detalhes que mostram que os caras entenderam que a gente tá jogando um clássico hoje, não em 1992.
Os cenários são uma viagem. Jardim, lago, esgoto, ambientes diferentes e um covil que eu não vou entregar. Se você imaginar o que pode aparecer nesses lugares, provavelmente vai aparecer. Peixe? Tem. Vespa? Tem. Aranha? Tem. Criatura absurda que ninguém esperaria num jogo de navinha? Também tem.

Se estiver em dúvida, pergunta pra um dedetizador. Ele provavelmente sabe.
O som também tem personalidade. A voz em japonês logo de cara me chamou atenção. E a trilha ganhou cuidado especial: Chris Hülsbeck, compositor original, voltou com versões novas das músicas clássicas.
Conteúdo não falta. Cinco mundos, várias fases, 20 chefes, fases escondidas e até coop novo, com o segundo jogador numa abelha com arma própria. Dá pra sofrer sozinho ou chamar um amigo pra sofrer junto.
Foi essa combinação que me fez gostar tanto. O jogo não esconde de onde veio. Pega aquela maluquice que só os anos 90 teriam coragem de fazer, preserva a essência e coloca numa apresentação bonita.

E isso fica ainda mais claro quando você coloca as duas versões lado a lado.
Olha o original e pensa:
“Isso aqui é Amiga.”
Olha o Special e vê a mesma ideia com vida nova, sem perder a cara.
É assim que eu gosto de ver clássico voltando.
Vale a pena?
Pra cacete.
Se você jogou Apidya na época, recomendo ainda mais. Dá pra comparar o que ficou na memória com o que os caras reconstruíram agora. Mas mesmo quem nunca chegou perto do original se diverte. É bonito, tem personalidade, o gameplay é direto e, acima de tudo, é diferente.
Porque convenhamos…
Quantos jogos de navinha você conhece em que o protagonista vira abelha com magia ancestral pra salvar a esposa?
Pois é.
Só isso já merece respeito.

Eu gostei pra caramba. Joguei, terminei e ainda volto de vez em quando. E quando troco a versão antiga pela nova com um botão, fico pensando no trabalho que deu colocar tudo isso de pé de novo.
É homenagem feita com carinho.
E quando a homenagem é boa, a gente percebe.
Apidya' Special é bonito, divertido, difícil pra cacete e tem personalidade de sobra.
Pra quem gosta de jogo de navinha daqueles que fazem você morrer, xingar, respirar fundo e apertar Start de novo…
Pode entrar.
Só não venha reclamar quando a abelha começar a te descer a porrada.
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