Para quem viveu a era 32-bit, isso soa como heresia técnica. Mas é real. Um desenvolvedor conhecido como XL2 conseguiu rodar uma forma primitiva de ray tracing em tempo real no Sega Saturn. Não é um filtro fake, Não é um vídeo renderizado fora do console. É o próprio Saturn calculando luz e sombra dinamicamente, ali, naquele hardware de 1994 que sempre foi visto como complicado, temperamental e, ao mesmo tempo, cheio de potencial escondido.
O demo mostra uma única sala 3D. Não há luzes fixas no cenário. Tudo o que você vê sendo iluminado vem do clarão da arma do personagem. Cada sombra, cada mudança no ambiente, é recalculada em tempo real a partir desse disparo. É uma técnica baseada em BSP, que organiza o espaço 3D em estruturas matemáticas para permitir esse tipo de varredura de luz.
Visualmente, é bruto. Blocos grandes, sombras duras, ruído aparecendo conforme a câmera se mexe. Mas o ponto aqui nunca foi beleza. O ponto é que isso simplesmente não deveria ser possível nesse console. E mesmo assim, está acontecendo.
O mais incrível é que não é a primeira loucura desse cara. O mesmo XL2 já tinha conseguido rodar uma versão jogável de Unreal no Sega Saturn, com mapas recriados do clássico de 1998. Ele claramente tem uma obsessão saudável em empurrar esse hardware além do que qualquer estúdio da época jamais tentou.
Por baixo do capô, esse ray tracing improvisado quase certamente está usando tudo o que o Saturn tem. Os dois processadores SH-2, os dois chips gráficos, tudo trabalhando em conjunto. O Saturn sempre foi assim. Um console cheio de peças estranhas, difícil de programar, mas absurdamente recompensador para quem conseguia entender sua lógica maluca.
E isso diz muito sobre o próprio Saturn. Três décadas depois, ele ainda está sendo redescoberto. Ainda está revelando possibilidades que ficaram enterradas porque a indústria daquela época simplesmente não tinha tempo, dinheiro ou paciência para explorá-las.
Enquanto a Sega parece preferir fingir que essa era nunca existiu, sem mini-consoles, sem grandes relançamentos, sem homenagens, a comunidade segue fazendo o trabalho pesado. Gente que ama esse hardware o suficiente para perguntar: “e se a gente tentasse algo que ninguém nunca tentou?”
Ray tracing no Sega Saturn não vai virar um jogo comercial. Nunca vai. Mas ele prova algo muito mais bonito. Esse console nunca foi fraco. Ele só estava esperando alguém curioso o bastante para desbloqueá-lo.
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